domingo, 10 de março de 2013

Quando chegarem (Alma Welt)


                                                foto: Andre Garban 1930

Quando chegarem (Alma Welt)

Quando chegarem os dias de tristeza,
Que esses dias fatalmente hão de vir,
E o céu baixar perdendo sua leveza
E as noites já não forem pra dormir

Mas não como na louca juventude
Quando a preenchíamos ardente
De abraços e canções de plenitude
Qual se fôramos viver eternamente,

Então, Rodo, meu amor, que não me vejas
Se eu perder minha beleza do início
Que fruístes no meu tempo das certezas,

E me agarrarei a uma lembrança
De mim nos teus olhos como vício,
Que neles eu me via em esperança...

sábado, 2 de março de 2013

Casanova (de Alma Welt)


Báh! como foram belos os nossos dias!
Tu não te lembras, amor? Tão inocentes!
Não havia nem sombras de agonias,
Sereno era o amor, e sem repentes...

Eu bem podia contar com teus carinhos
Desde o alvorecer esfuziante
Até o adormecer nos nossos ninhos,
Após um dia de sonho deslumbrante...

Não me renegues, pois, deitando as cartas
Que não aquelas ternas que trocamos,
Enquanto de outras damas tu te fartas.

Leviano Casanova te tornaste,
Com isso nem contava o Nostradamus
Muito menos esta mão que descartaste...

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Caim às avessas (de Alma Welt)





  Eros e Psiqué -  desenho de Guilherme de Faria
 

Caim às avessas (de Alma Welt)

Refém da memória eu me recordo
De tudo quase tudo a que quis dar-me
Desde que de manhã cedo acordo
Até de noite na hora de deitar-me.

E foi sempre ao belo e à poesia
Que entreguei meu corpo e coração.
“Hipócrita!” Ouço o grito na coxia.
“Primeiro te entregaste ao teu irmão!”

Se Caim sou às avessas, não matei.
E quanto à voz de Deus a repreender-me,
Só consigo me lembrar do que falei

Quando me alteei e ergui o rosto:

"Senhor, do amor não hei de arrepender-me,"
“Regalo da vida o que é de gosto..."