quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O blefe e a poesia (de Alma Welt)



O blefe e a poesia (de Alma Welt)

"A poesia é só coisa de maluco",
Dizia Rodo, meu irmão, jogando truco,
Atirando as cartas, forte, sobre a mesa,
O que me deixava tensa e tesa.

Mas sentindo certa falta do curinga
Meu irmão logo pro poker se virou,
O que ocorre se a poesia afinal vinga
Pois bom blefe nem o Freud detectou...

E lá foi ele, descendo a correnteza,
A esconder sua mão e sentimentos
Enquanto eu punha a alma sobre a mesa.

Mas como admiro sua postura!
Com meus pudores e arrependimentos
De abrir assim a alma, embora pura...

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21/12/2016

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O sedutor (de Alma Welt)

"Báh! Vamo-nos daqui!"- dizia o irmão.
"O mundo é grande, vasto glorioso
Mas começa só além deste portão,
Que este casulo, sim, é perigoso."

"Cabelo ao vento, vem comigo na Ferrari
À fiel Punta de Leste no Uruguay,
Depois ao Chile à vã Viña del Mare
Onde um noviço jogador primeiro vai..."

"Se tiveres um pouquinho de talento
E deixares para trás este convento.
Te ensinarei os bons blefes e truques."

E eu olhava para ele, enternecida,
E pedia para me mostrar os muques,
Tentada, hesitante, seduzida...

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14/10/2016

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

O Boato (de Alma Welt)

Disseram-me que Rodo estava morto....
Montada em meu cavalo desmaiei
E acordei como saída de um aborto,
Perdida, sem vontade e sem mais lei.

Mas era boato, mentira de inimigo
Que buscava destruir nossa família,
Pois jogando, Rodo era uma ilha
Olhando nada além do seu umbigo.

Ouvi o ronco do seu carro na estrada
E corri para porteira, desvairada
Para abraçá-lo até desfalecer.

Então, ele, com seus olhos inocentes
Disse: Irmã, conheço tudo o que tu sentes,
Não precisas mais blefar pra me reter...

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07/09/2016

O aventureiro (de Alma Welt)

A vida é lindamente perigosa,
Diz Rodo, meu irmão aventureiro,
Com aquele ar astuto de raposa
Que acabou de arrombar o galinheiro.

Venha comigo, Alma, pela estrada,
Vamos juntos aos cassinos jogar tudo!
Ontem, por um triz, um quase nada,
Inverti a lei do jogo, "lex ludo"...

Quase quebrei a banca na roleta
E saí na minha Ferrari à contramão
Despistando uma outra bem suspeita.

No poker, mais bonita e provocante
Poderei resgatar-te numa mão *
E te darei metade do montante...

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07/09/2016

Nota
*"Poderei resgatar-te numa mão" - Na verdade, isso ocorreu muitos anos atrás, quando Rodo, acompanhado da Alma no auge de sua beleza, jogou sua própria irmã no poker (além de jogar a estância também) numa mesa de profissionais e milionários, e... ganhou. E ao que parece, Alma o perdoou. Vejam o soneto abaixo:

O Rei dos Descalabros (de Alma Welt)

Acendam luzes, velas, candelabros,
Quero a casa em festa nesta noite!
Alguns o chamam “rei dos descalabros”,
Mas peço, não me impeçam que me afoite.

Jogou a nossa estância... mas ganhou!
Até este casarão trocou em fichas.
Com sua própria irmã ele dobrou
E uma fortuna fez, de velhas rixas...

Para saudar o aventureiro, acenderei!
Vou esperá-lo na varanda com champanhe,
Não o censurarei... Deus me acompanhe!

Para não ser comedida com o sortudo,
Ao abraçá-lo forte, esquecerei
Ter jogado minha carne, alma, e tudo...

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sem data

sexta-feira, 3 de junho de 2016

O Filho Pródigo ( de Alma Welt)


O desgosto de meu pai não terei sido
Apesar de ser poeta desde cedo
E portanto o meu punho ter erguido
Contra a sujeição e o engano ledo.

Meu irmão é que foi o filho pródigo
Correndo mundo atrás das aventuras,
Mas sempre através do mesmo código:
Quatro naipes e as suas diabruras...

Mas ao contrário da irmã acomodada
Que reclama iguais cuidados e carinho,
Fui do bom diabo a advogada:

"Perdoa, pai, meu tresloucado irmão!
Ele é bom no que faz longe do ninho
E não tirou um palmo ao nosso chão..."