terça-feira, 1 de agosto de 2017

O Pampa é minha charneca (de Alma Welt)

O pampa é minha espécie de charneca *
E a coxilha também ostenta cruzes,
Mas se não caminho sobre urzes *
Por falta de mau vento ela não peca.

Também tive e amei meu Heathcliff *
Que, jogador, um dia ele se foi.
E eu que jogava sem cacife
Fiquei a ver lanchão puxado a boi. *

Anos perdidos, até o amor voltar,
Mas pai e mãe fui eu quem enterrou,
Ele só veio, como outro, me cobrar... *

E agora o casarão jaz assombrado
Mas o jogo continua onde parou
O mesmo fio, um amor nunca acabado... *

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01/08/2017

Notas
*... charneca - trata-se da região plana com ondulações do norte da Inglaterra, cenário celebrado do célebre romance inglês de Emily Brontë (amado pela Alma) "Wuthering Heights" (O Morro dos Ventos Uivantes). Pelo visto a Alma Welt se identificava muito com a Catherine Earnshaw, heroína daquele maravilhoso romance.

*Mas se não caminho sobre urzes- a vegetação rasteira da charneca se constitui principalmente de urzes, enquanto na coxilha pampiana, é o capim e outras ervas. Flores silvestres existem em ambas...

*Também tive e amei meu Heathcliff - Alma associa o grande personagem masculino do romance de Emily Brontë, Heathcliff , com o seu irmão Rodo, jogador de poker, de características parecidas, apaixonado, intenso, brutal.

* Fiquei a ver lanchão puxado a boi- expressão pampiana criada pela Alma, equivalente a "fiquei a ver navios", e derivada do episódio da Revolução Farroupilha, do transporte épico dos lanchões de Garibaldi, por quilômetros pela coxilha, em cima de carros puxados por juntas de dezenas de bois, para colocá-los na Lagoa dos Patos, para entrar em combate naval com a esquadra imperial.

*Ele só veio, como outro, me cobrar- Heathcliff, tendo ido embora, depois de muitos anos volta rico, esperando casar-se afinal com Catherine , mas a encontra já casada. Então dedica-se a um diabólica vingança por seu amor traído...

*O mesmo fio, um amor nunca acabado - o final do romance dá a entender que o amor de Cathy e Heatcliff não termina nem com a morte dos dois, tomando um cunho espectral, gótico, típico do romantismo inglês...

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A Perda (de Alma Welt)

Tive na vida um momento de pavor
E até hoje eu medito sobre isso,
Embora estivesse em pleno viço
E minha vida se abrindo como flor.


Para manter a minha integridade
Precisei de um elemento agregador,
Com o cimento forte da Verdade
E uma resistência ao mal e à dor.


Era uma vez um jardim e uma estância,
Onde tudo era inocente em nossa infância
E nem tínhamos sequer dentes de siso

Foi quando minha mãe num dado instante
Pegou a mim e ao mano num flagrante
Que, tão puros, nos custou o Paraíso...

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05/07/2017

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O segredo de meu pai (de Alma Welt)

"Haveremos de nos encontrar um dia",
Disse meu pai no seu leito de morte.
"Eu, tu, tua mãe saudosa e tua tia,
Junto com dos anjos toda a coorte..."

Assim disse meu pai quando morria,
E então deixei passar, de tão chocada,
Este dado, sutil, que eu percebia:
Por quê fora minha tia mencionada?

Passaram-se os meses, logo um ano,
E um dia um sorriso e uma covinha
Denunciaram o meu querido mano.

De minha mãe, por certo, não os herdara,
E aquela aventureira audácia rara
Eu agora sabia de onde vinha...

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20/02/2017

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Ação e pensamento (de Alma Welt)

A solidão é a mãe do pensamento
E a ação é nossa irmã instigadora...
Quanto a mim, tive uma mãe inibidora,
Mas meu irmão... um pé de vento.

Rodo, pequeno aventureiro de quintal,
Lembro de vê-lo pulando a nossa cerca
Para ir buscar um pinheiro de Natal,
Conquanto a inocência logo perca.

Depois o jogo, as cartas sobre a mesa
Certamente não pra ler nosso futuro,
Mas sim para jogá-lo na incerteza.

O equilíbrio, cada um no seu lugar,
Foi conseguido afinal com certo apuro
Entre ação e pensamento, terra e ar...

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17/02/2017