Planos pro Verão (de Alma Welt)
Vem encontrar-me no jardim, ó meu irmão!
A ti meu plano então revelarei,
Bem... irei contigo (já adiantei),
Estou fazendo as malas pro verão
Em Punta de Leste, pro teu pôquer,
Ostentarei os meus melhores panos,
Serei a sedutora
girl de
gangster,
Para que confundam seus arcanos.
E se, furiosos, vierem-nos atrás,
Fugindo contigo no Aston Martin
Pelas estradas, de mim te orgulharás.
Bem sei que desde já o Diabo ri,
Menos de ti, ó blefador, do que de mim.
"Ele" há muito é o Curinga por aqui...
(sem data)
Não ao anátema (de Alma Welt)
Me disseram que amar o meu irmão
É uma doença que tenho que tratar.
Mas jamais concordarei com tal visão,
Que um amor não serei eu a extirpar,
Sob pena de lesar-me a existência,
E ficar só e vazia, de repente,
Que sem amor a vida é quase ausência
E o Nada entra, fica, e nos desmente.
Pois lembro que expulsos do Jardim
E arrastados debaixo de um berreiro,
Rejeitei a dor do anátema... em mim:
Não reneguei o amor de meu irmão,
Que, audaz, afrontei o mundo inteiro,
E o canto em prosa e verso desde então.
(sem data)
O Mesmerista (de Alma Welt)
Meu irmão convidou um jogador,
Seu colega aventureiro e “mesmerista”,
Que dizia anular qualquer pudor
Até de antiga freira ou normalista.
E que usara esse poder para vencer
No pôquer, o que quase lhe custara
A vida e mais um olho de sua cara
Retirado a canivete, sem tremer.
Mas a pedido dele em reservado,
Deixei caolho-rei dos fascinantes
Exercer o seu dom em pleno prado...
E voltei com o olhar esgazeado
Com passos abertos, claudicantes,
E o ar pleno e perdido das amantes...
(sem data)
Nota
Acabo de descobrir na Arca da Alma este curioso soneto, nitidamente humorístico, em que Alma conta um episódio real, que em parte testemunhei. Rodo trouxe, para passar uns dias aqui na estância, um "colega" jogador de pôquer profissional, que realmente tinha um olho de vidro e que contou que tinha usado seu dom de hipnotizar em pleno jogo privado com um milionário, e descoberto, passou por maus bocados, quase foi morto e acabou perdendo um olho como lição, retirado a canivete por um capanga do dito ricaço. Insinuante, deu um jeito de ser desafiado no seu dom mesmérico pela Alma, extremamente curiosa que ela era. Mas eu não soube na época desse resultado perturbador, que se deduz deste soneto... Teria a Alma, hipnotizada, sido estuprada em plena coxilha por esse pilantra? (Lucia Welt)
A Ofélia dos pampas (de Alma Welt)
(20)
Contemplativa mais a cada lua,
Tomada por estranha nostalgia
Me ponho na varanda qual coxia
De um palco onde o coração atua.
E me vejo qual Ofélia coroada
De flores, entoando um triste canto
Mais veemente que o perdido pranto
Para morrer de mim tão afogada!
E nem falta o príncipe, qual seja:
Hamlet dos pampas, ah! tão puro,
Que como monja e amante me deseja.
Não direi a tragédia com que arca,
Que sendo irmão caminha sobre o muro
Dos fantasmas desta bela Dinamarca...
28/11/2006
Abro a janela... (de Alma Welt)
(30)
Abro a janela que dá para o jardim
E vejo meus irmãos ali brincando.
Ah! já começaram! E sem mim!
Voltei à infância, já me atrasando...
Esperem-me, Solange, Rôdo, Lúcia!
E vindos da futura geração
O pequeno Hans e seu irmão
Que parecem dois ursinhos de pelúcia.
Estamos todos juntos... como pode?
Ah! Somos crianças novamente!
Pedrinho pede a Pati que o rode
Ao compasso do *scherzo de Beethoven
Que o *Vati punha alto para a gente,
E que os meus ouvidos ainda ouvem...
16/12/2006
Nota da editora;
*... scherzo- (brincadeira, folguedo infantil, em italiano)
Movimento bem ritimado, às vezes acelerado, em geral o segundo movimento de sinfonias.
*... Vati- (pr. Fáti) papai, em alemão.
Viagem ao pomar (de Alma Welt)
(31)
Pelas ondas do meu Pampa ideal
Eu percorro as rotas de minh'alma
E posso iluminar como um fanal
A nave que de mim venho mais calma.
É noite sobre o pampa e a estrela
Que me guia na viagem para o lar,
(que comecei antes mesmo de fazê-la)
Qual o Negrinho ainda vem me "pastorar".
É o meu destino de volta ao coração
Onde está a Poesia e o meu irmão
Rôdo, que no cais ainda espera
Para juntos encontrarmos nossa Era
No pomar da nossa bela macieira,
Onde tudo começou em brincadeira...
16/12/2006
No dia em que a Mutti nos flagrou (de Alma Welt)
(42)
No dia em que a Mutti nos flagrou
A mim e ao irmão em brincadeiras,
Pelos nossos cabelos arrastou
Entre peões e risadas zombeteiras.
Com a mãozinha, obrigada, eu cobria
As “vergonhas” ( o que não me ocorreria)
E fez-nos entrar no casarão
Para mais furibundo e atroz sermão.
Mas eis que o Vati, carinhoso
Disse: —Pára, mulher, assim não vai...
Criança é bichinho só curioso...
-Não a toques, vê, está pelada!
Gritava minha mãe ainda irada...
E ele: “Vem, minha princesa, com teu pai!"
20/12/2006
Eu e os piratas (de Alma Welt)
(43)
Meu irmãozinho construiu embarcação
Toda de caixotes, pouco destra,
Com um cabo de vassoura e armação
Que pretendia ser a vela mestra.
E a arrastamos juntos ao laguinho
Da cascata, pra com ela navegarmos
Como piratas, eu com bigodinho,
Ele com a venda e os sarcasmos.
Mas eis que me vi numa enrascada,
Pois borrando meu bigode com o dedo
Ele disse: “ Descobri o teu segredo!”
“Já que és mulher és cobiçada
E vais ficar pelada e com medo,
Pois serás de toda a marujada!”
20/12/2006
Que falta... o meu Natal! (de Alma Welt)
"Mudou o Natal, ou mudei eu?" (Machado de Assis)
(53)
Eis aí o Natal neste meu Pampa.
E eu não sei se gosto ou se minto...
Faltam tantos queridos, falta tanta
Emoção que agora não mais sinto!
A Mutti, o Vati, até a irmã*
Que me fazia picuinhas de Natal
Só pra não perder a mão do sal
Com que cosinhava a coisa vã.
E Alberto*, o meu fã embriagado
Que não obstante meu cunhado
Me declarava amor e coisa e tal...
Rôdo, onde está?* E a irmã Lúcia,
Pê e Pati e os anjinhos de pelúcia?*
Ah! Como faz falta o meu Natal!
23/12/2006
The Last Christmas (de Alma Welt)
(54)
Rôdo, traidor e ainda amado
Que me ligas aí dessas europas
Pra me dizer que estás atribulado
E não podes enviar as tuas tropas
Para vir salvar meu coração
Assaltado de temores e tristeza
Por um Natal afinal de solidão
Com a falta que me fazes, com certeza.
Eu olho à minha volta e sinto tanto
Que a vida tenha entornado o caldo
Pr'a Solange, o Alberto e o Geraldo
Perdidos sem o pranto que não pude,
Os piás a mudar, perdendo o encanto,
E eu a despedir da juventude...*
23/12/2006
Nota da editora:
* "a despedir da juventude"- Do ponto de vista físico Alma estava no auge de sua beleza e juventude.
Entretando a depressão estava talvez produzindo nela, subjetivamente,
um envelhecimento psíquico que este soneto sugere.
A Revolta dos Amores (de Alma Welt)
(62)
Meus amores revoltados se congregam
No tempo de minh' alma e coração,
Ai! Como saber se um dia sairão
Das dores e cobranças que os cegam?
Rôdo, a quem não mais ofereci
O meu corpo, e depois a prima Helga,
Aquela que eu rimava com acelga,
E gostava de brincarmos de xixi...
E depois Aline, amor paulista,
Que era só pra ser modelo meu
E logo nos meus braços se perdeu.
Ah! Andrea, que ao amor correspondia
Desta Alma louca e nunca vista
E que por pensar-me morta, mais sofria...
27/12/2006
A vida secreta dos pavões (de Alma Welt)
(63)
Quando guria sonhava ser estrela
Mas de balé ou então do Alla Scala:
De ópera, como a Callas, que ao vê-la
Um dia achei que iria superá-la.
Meu Rôdo até hoje me incentiva
E acha que o Vati fez milagres,
Acredita que a irmã é uma diva,
Sua poesia faz escola como Sagres.
Sim, poetas navegam universos
Belos, multiformes, com seus versos,
Mas se trata do mundo impraticável,
Cuja beleza seduz por gerações
Mas que acaba sendo imponderável
Como a vida secreta dos pavões...
28/12/2006
Quando avisto ao longe... (de Alma Welt)
(65)
Quando avisto ao longe o casarão
Da minha infância e agora da poeta
Que o canta e molda em emoção
Como reminiscência predileta,
Eu vejo que eterno ficará
Em sua saga própria, suas lendas,
Conquanto a decadência chegará
(as paredes já ostentam suas fendas)
Pois tudo permanece na memória
Que co'a mente do leitor forma um todo,
Como as ruínas das Missões e sua glória...
Aqui a Alma amou e foi amada,
Aqui foi feliz c'o Vati e o Rôdo
E com a prole inocente e encantada!
30/12/2006
Vai-te, ano... (de Alma Welt)
(69)
Esta noite cantarei os meus amores
Despedindo triunfante o ano findo,
Com todas as delícias e os horrores
Daquilo que foi feio, e o que foi lindo.
Andrea, me perdeste, te perdi.
Mayra, aluninha arrebatada
Por tua mãe, em cantata inacabada;
Mano Rôdo, viajaste, meu guri!
Kibsel que afrontaste tua morte
Por amor que no entanto não fui eu;
Aline que escolheste tua sorte
E fugiste com teu Marco* que era meu
Fruto de teu amor com meu irmão...
Vai-te, pois, ó ano, ó confusão!
31/12/2006
Notas da editora:
No seu romance "O Sangue da terra", terceiro tomo da trilogia A Herança, Alma conta que Aline desejando ter um filho que pudesse criar junto com Alma, entregou-se com a conivência desta ao Rôdo, nosso irmão, para conceber, sem compromisso deste. O menino que nasceu foi chamado Marco, e Aline, cuja mente mudou após a maternidade, acabou abandonando Alma e voltando para São Paulo carregando seu filho.
A Harpia revisitada ( de Alma Welt)
(86)
Meu irmão quer dar-me uma Harpia,*
Quer dizer, um presente de rainha:
A águia das florestas e da Arcádia
Outrora monstruosa e mesquinha.
E tudo porque soube da aventura
Que tive com o tal colecionista,
Quando fui, digamos, finalista
Para desenhar a criatura.
Sim, aquele Antônio fazendeiro
Que acabou revelando o seu desejo
Para além do seu intento pioneiro.
Narrei tudo no meu conto celebrado
E agora, de repente, assim, revejo
O medo do *ménage inusitado.
04/01/2007
Nota da editora:
Creio que este soneto puramente evocativo, seja de difícil compreensão para
quem não leu o conto "A Harpia", do seu livro de contos
publicados pela Editora Palavras & Gestos(de São Paulo)
"Contos da Alma", de Alma Welt, que se encontra em algumas livrarias da capital paulista e pode ser adquirido pela Internet (vide "Alma Welt" no google). Lá embaixo, neste blog, antes do primeiro soneto da série publiquei a capa do mencionado livro.
Algumas pessoas(eu inclusive) consideram o conto A Harpia
uma obra-prima da Alma.
*" ménage inusitado"- no conto cheio de suspense A Harpia, Alma se vê envolvida numa espécie de "ménage-a-quatre", isto é um quatrilho composto por
ela, Antônio(o colecionador de aves raras), sua mulher Chiara, e a própria Harpia, a fantástica águia das florestas brasileiras, que era a estrela da coleção
do fazendeiro paulista que contratou e hospedou Alma em sua fazenda, como artista plástica para retratá-la num desenho.
Lembranças do corpo, dores da alma (de Alma Welt)
(87)
Faz tempo que não me banho nua
No poço da cascata ou na piscina
E sinto que se o tempo não atua,
Um crescente pudor meu corpo mina.
Onde está a inocência de outrora,
Peladinhos eu e Rôdo na campina?
A verdade é que a confiança mora
Onde a dor e o real não contamina.
Ainda lembro como fui tão humilhada,
Colocada aberta após a luta
Para ser degustada como fruta
Ali, no bosque, não longe destas águas
(e a alma ainda insiste nessas mágoas)
Exaurida, aurida e... violada!
04/01/2007
Nota da editora;
Descobrindo este soneto, fiquei perplexa e abalada.
No soneto Alma pretende revelar que já teria sido
violada antes, às margens da cascata onde seria morta
duas semanas mais tarde?
Ou teria sido mais uma antevisão, premonição ou vidência,
contada poeticamente de uma perspectiva póstuma?
O passatempo das horas (de Alma Welt)
(97)
Para escapar às tentações do tédio
Não aceito nenhum jogo de baralho,
Nenhum de tabuleiro ou o borralho
Dos sentimentos e do raciocínio médio.
Em matéria de cartas só respeito
As da cigana com seu pacto astral
Ou aquelas que exigem muito peito
Como as do Rôdo em seu pôquer marginal.
Mas servil, vejo o passar das horas
Como um mordomo que exige as atenções
A elas porque são grandes senhoras
Que preferem o soprano da poesia
Que lhes é apresentada nos salões
Onde o próprio Tempo se enfastia.
05/01/2007
O pedido da Alma (de Alma Welt)
(103)
Quando eu morrer me enterrem no meu prado
(quanto gaúcho já fez este pedido!)
Mas não quero pranto, prece nem gemido,
Quero mais é um fandango entusiasmado
Com chinocas, prendas e peões
Gaudérios, "gauchos" fanfarrões
Taconeando com as esporas pela lança
Numa pelea enérgica de dança!
E quero isso ao lado da minha cova,
Ou se possível mesmo em cima dela,
Que de amor só quero palmas como prova.
Uma lágrima porém permitirei,
Aquela do herdeiro do meu rei:
Meu irmão, de noite, o choro e a vela...
11/01/2007
Da gloriosa infância da Alma (de Alma Welt)
(107)
Aos nove eu já fugia do meu leito
Pra subir até o Rôdo na mansarda,
Pra com ele comer algum confeito
E sonhar com "feitos de vanguarda".
E depois de uma "noite de prazer"
(às vezes eu dormia em seu colchão)
Nós descíamos ao amanhecer
Para o desjejum com chimarrão.
E logo zás! pra fora em correria
Para escapar da dura inquisição
Da Mutti, que apartar-nos gostaria...
Então, brisas no rosto, ó meu "sertão"!
Ó pampa!... de mãos dadas e ao léu,
Nossa infância gloriosa sob o céu!
10/07/2007
Recordações da guria do pampa (de Alma Welt)
(112)
Quando guria subi no umbu pampeiro
Para ver o mundo lá de cima
Mas logo deparei c'um formigueiro
E perdi por um minuto a auto-estima.
Gritei: "Rôdo, Galdério, me acudam!
Não sei mais descer, estou com medo,
Aqui tem formigas e elas grudam,
E já uma delas me picou o dedo!"
Rôdo, rindo até rolando, retorquiu:
"Bah! Quem te queria ver pelada hoje viu,
Já que estás por baixo sem calcinha,"
"E agora que estás nessa forquilha,
Cuida que não entre formiguinha
Nessa tua rachinha-maravilha!"
12/01/2007
A Salamandra (de Alma Welt)
(113)
Me lembro de um inverno de lareira
(embora estejamos no verão),
Preparando do mate a saideira
Quando algo fez notar-se ao meu irmão:
"Olha, Alma, nas chamas, olha ali!"
Eu olhei e por instantes nada vi,
Até que por sua insistência,
Finalmente vi Sua Excelência
A Salamandra, um lagarto transparente
Que brincava no fogo ali em frente
Como um ser de vidro, embora vivo.
E eu, comovida, percebia
Que a nota mesma, e o motivo,
Era a dádiva, a mim, da alegria...
12/01/2007
A Salamandra retornada (de Alma Welt)
(122)
E a Salamandra apareceu de madrugada
Nas chamas da fogueira na campina!
Estava eu com meu Rôdo acordada,
Co'a chaleira em chiadeira muito fina,
Envoltos nos palas, sob estrelas
Que velavam o serão do meu destino,
E que se aproximaram para vê-las,
Às chamas, e ao show reptilíneo
De seu elemental perante um par
Que assim indagava seu caminho
Qual se fora plausível e comezinho.
Então, acreditem, ela mostrou,
Aquilo que não posso revelar,
E a Alma em solidão sempre sonhou...
15/01/2007
Nota da editora:
*Salamandra- Alma tinha uma ligação muito forte com esse elemental do fogo, e em vários momentos de sua obra se refere à sua aparição nas chamas, presenciada por ela e Rôdo. Estou convencida de que ela realmente via a Salamandra, como um lagartinho vítreo e transparente brincando nas labaredas, e que trazia uma mensagem oculta de seu destino.
O volátil real (de Alma Welt)
(141)
Estou correndo o risco de viver
A vida de soneto em soneto
Pois somente neles posso ver
A mim e meus fantasmas, como um gueto.
Tenho em volta a mim tanta beleza,
Este pampa, a pradaria, os animais,
E já não consigo ter certeza
Se são apenas versos ou reais.
Está faltando o senso do palpável,
Ou da tênue fronteira do real,
E temo já nem parecer saudável
Pois sinto que me olham já de esguelha,
E faço com o Rôdo uma parelha
De irmãos siameses do Nepal...*
19/01/2007
Nota da editora:
"irmãos siameses do Nepal"- Com esse estranho verso, não sem um certo humor Alma sugere o absurdo ou a estranheza de sua simbiose anímica com nosso irmão Rôdo, inseparáveis que eram desde a infância, apezar de Rôdo viajar bastante pelo mundo, como jogador quase profissional de pôquer.
Muito voei (de Alma Welt)
(159)
Muito voei até extremos planos
Onde o Chuí desliza até o mar
E começam os pagos castelhanos
Em que quisera um dia me exilar
Quando de mim levaram meu irmão
Para longe da irmã e desta estância,
E quando truncaram minha infância
Por acharem que cabia punição
Àquele amor feliz e apaixonado
De duas crianças que se acharam
No mundo como um só ser apartado.
E agora faltava o outro lado,
Sempre, que no meio me racharam,
A procurar dentro de mim o ser amado...
13/01/2007
Jogos do Fogo (de Alma Welt)
(171)
Noites do meu Pampa, inesquecíveis,
Em bivaque sob estrelas, mateando,
Meu irmão e eu dolentes e sonhando
Conosco como sendo imperecíveis
No sonho de sonhar o impossível
Que era para nós permanecermos
Para sempre no minuto intangível
De ali estar e ao outro pertencermos.
Ah! E que nada jamais superaria
A doce sensação de sermos fogos
Embora o fogo nos quisesse outra via
E para isso logo nos apartaria
Levando-nos, os dois pra outros jogos,
Nas sortes, nos azares, na Poesia...
03/01/2007
Palavras ao Rôdo (de Alma Welt)
(173)
Rôdo, meu irmão, hoje não jogues,
Algo me constrange o coração,
Só peço que fiques, dialogues
E esqueças esta noite e sua mão.
Sonhei com um Royal Straight Flush
Sobre negra mesa de baralho
E depois um vermelho como um flash
Sobre as cartas, a mesa e o assoalho.
Então, irmãozinho, não me negues
Só um dia do teu jogo vou pedir,
E o de hoje peço que me entregues.
Depois quando o sol se levantar
E todo o nosso Pampa despertar,
Podes, de mim, no teu leito despedir...
12/01/2007
Nota da editora:
Me lembro bem desse dia. Nosso irmão Rôdo, jogador semi-profissional de pôquer, que saía quase todas as noites para jogar nas cidades vizinhas, assim como já o fez por meio mundo afora, aquela noite atendeu o pedido da Alma, pois aprendera a confiar nos pressentimentos dela desde a infância. Alma ia além disso e tinha um notável dom de vidência. Tenho certeza que o sonho da Alma e seu pedido salvaram naquela noite a vida do nosso irmão, cuja imensa sorte e habilidade no jogo despertavam freqüentemente invejas e ódios em alguns parceiros. É curioso também, neste soneto certa ambigüidade, pois o último verso dá a entender que como compensação ela dormiria com ele aquela noite, ou mesmo que todo o suposto sonho tenha sido um pretexto para isso. (Lucia Welt
Jogos do Amor (de Alma Welt)
(186)
Meu irmão aprendeu a fazer mágica
Com as cartas, já que é um jogador
E mostrou-me um truque encantador
Não fora a conseqüência quase trágica
Pois fazia aparecer um ás no pôquer
Numa certa seqüência de cartada.
Mas não resistiu, numa noitada,
A fazê-lo em pleno jogo, pra valer.
Nessa noite ele voltou muito ferido
E o tratei condoída e consternada,
Que nunca o vira assim desprotegido,
Pois que, pra quem está acostumada
A vê-lo e tratá-lo como herói,
Descobri-lo vulnerável... ah! como dói!
07/01/2007
De lobos e guris (de Alma Welt)
(196)
Minha mãe dizia haver um lobo
No bosque aqui perto e emboscado
E que eu deveria ter cuidado
E nem sequer ir ali com o meu Rôdo,
Pois meu irmão, guri bem destemido,
Não seria páreo pro vilão
E que depois de assado e comido
Eu seria a sobremesa alí à mão.
Mas a curiosidade era mais forte
E eu entrava com ele ou sozinha
Embora jogássemos com a sorte
Pois a verdade era que eu creía
Haver o lobo que comia criancinha,
E até hoje ainda creio: o lobo havia.
13/01/2007
De pôquer e Da Vinci (de Alma Welt)
(208)
Rôdo, irmãozinho, estás de volta
E jogas cartas e dinheiro sobre a mesa.
Talvez penses aplacar minha revolta
Com os signos da tua realeza.
Eu sei que pouco perdes e mais ganhas
E que o pôquer é "cosa mentale",*
Que como a arte do Da Vinci isso vale,
Já conheço teus recursos e barganhas.
Mas, irmão, não vês que ficas longe
Por tempo demais para esta Alma
Que está longe de ser como o tal monje*
Que enviou o companheiro ao monastério
Em missão, e esperou com tanta calma
Que o reencontro foi no cemitério?
03/01/2007
Nota da editora:
"cosa mentale"- Leonardo Da Vinci escreveu num códice seu que "pittura è cosa mentale", enunciando de maneira pioneira o conceito de pintura como expressão intelectual e mesmo "conceitual", o que seria grato à crítica do século XX, ou seja da "arte moderna". No soneto da Alma ela parece se referir a uma conversa que teve com Rôdo, em que ele teria defendido sua obsessão pelo pôquer como por uma arte intelectual e profunda.
".. o tal monje"- Não foi possível identificar ou reconstituir essa estória, talvez um "koan" zen, a que Alma estaria se referindo nestes versos. Desconfio que Alma inventou esta estorieta, como ela fazia muitas vêzes, para justificar idéias suas num verso, tal como já o fazia Jorge Luis Borges, o que aliás é prerrogativa dos grandes poetas: criar suas próprias lendas e mitos e citá-los como se já fossem do conhecimento universal, o que é no mínimo muito divertido. (Lucia Welt)
Gnose (de Alma Welt)
(213)
Quando a Açoriana faleceu,
Ela que era a mãe, a minha Mutti,
Eu pensei, depois do tanto que doeu:
"Talvez a vida agora eu desfrute."
Pois mais doía ainda a incompreensão
E ardiam nas costas as varadas
De marmelo, pela minha incontenção
E mesmo minhas cândidas noitadas
No leito do irmão, nós dois colados,
Como um ser que fosse uno, uma gnose
Pela qual nos fariam execrados
Pois teimavam em apartar desta guria
O ser com quem vivia em simbiose
E a quem devo toda a minha poesia...
08/09/2006
Nota da editora:
O amor, a paixão mesmo que unia Alma e Rôdo desde guris
foi motivo de escândalo e chegou a repercutir na região.
Mas pela intensidade e grandeza desse amor, produziu-se uma visível trancendência que alcançou, após a morte da Mutti, uma tolerância, senão uma conivência por parte de todos, até dos peões da estância (por incrível que pareça) e que acabou se tornando parte do mito da Alma, mesmo entre nós seus familiares, com exceção da Matilde, nossa querida babá, cuja rabujice católica nunca foi levada muito a sério por nós, pois sabemos quanto nos ama. Entretanto preciso dizer que meu ex-marido Geraldo ousou desrespeitar a Alma por isso, e por sua cobiça por sua beleza, coisa que testemunhei e que Alma descreveu no seu romance inédito A Herança. Surprendi-me com este soneto, encontrado no recém-descoberto "caderno secreto" da Alma pois nele ela revela o seu ressentimento pela "incompreensão" (afinal compreensível) da nossa mãe, diante do incesto de seu filhos. Mas notem que nele a palavra "gnose" é a chave para o entendimento da postura espiritual e física da Alma na sua relação com Rôdo. (Lúcia Welt)
O segredo da Cascata (de Alma Welt)
(215)
Cavalgando uma manhã na pradaria
Encontrei uma carroça de ciganos
Que erravam há dias pelos planos
Atrás de uma cascata que havia
Para acamparem no entorno...
Porquanto me pareça um povo artista
Algo me dizia ser transtorno
E pensei em fornecer-lhes falsa pista,
Pois meu irmão fizera-me jurar
Que o nosso paraíso da infância
Não iríamos com outros partilhar.
Mas, então, com a rédea fiz um ésse
Em silêncio retornando à estância
A esperar que o segredo se impusesse.
14/12/2006
Nota da editora:
Alma e Rôdo costumavam banhar-se nus desde guris no poço da cascata que fica em local quase desconhecido de uma mata virgem próxima do casarão.Entretanto seria impossível mantê-la secreta como eles pareciam acreditar. A verdade, lamentavelmente, é que o hábito da Alma de banhar-se nua, ali, no esplendor de sua beleza, acabou lhe custando a vida. O peão (de uma estância vizinha) que a matou já a observara antes ou ouvira falar da beldade nua daquele poço (isto está sendo investigado). (Lucia Welt)
De pôquer e carência (de Alma Welt)
(223)
Caminhar no casarão a passos lentos
Tornou-se hábito embora eu seja jovem,
E posso até ouvir meus pensamentos
E sonetos, que nonatos, me comovem.
Subo de repente ao nosso sótão
Onde já nasceu mais de um poema,
Ali deitando-me no catre do irmão,
E em que tantas vêzes fui meu tema.
E então, recordações sensoriais
Me fazem chorar e adormecer
Agarrada aos travesseiros e meus ais
Para sonhar que estou no abraço forte
Do guri que me deixa sem saber
Que seu pôquer há de ser a minha morte...
17/01/2007
Amar, amores (de Alma Welt)
229
Quando meu amor comigo andava
Nas manhãs de primavera, ao meu lado,
Eu sentia que o Tempo então parava
E o Infinito se instalava no meu prado.
Esse amor que os destinos alterava,
Ora era Rodo, meu irmão, depois Aline,
Laís, depois Mayra, a sublime,
E Andrea que digitalmente amava...
E por razões ocultas, pouco nexas
(ou isso era desmando muito louco
de um piá com as suas doidas flexas),
Eu amava o amor que me mirava
E cujo foco podia durar pouco
Pois o belo sua face transmutava.
06/01/2007
Chuva e sol, ou La niña (de Alma Welt)
239
Rôdo, mano, vai na frente espionar
Pra ver se posso entrar pela cosinha!
Matilde já não quer acobertar
As loucas escapadas de "la niña".
Já que estou molhada e seminua,
Minha Bá achará que estou sem roupa
E a Mutti se me pega perpetua
O mito de que Alma é mesmo louca.
Com a chegada do nosso haragano,
Bah! rolar na chuva nestes prados
Com o sol em contraponto pampiano
E ter estado nos teus braços, meu irmão,
Gritando de alegria, ensopados,
Vale na certa os tapas e o sermão!
04/11/2005
Nota da editora
Ao encontrar este soneto mais uma vez me comovi, pois ele recorda um fato que testemunhei. Lembro-me bem desse dia, quando Alma ainda adolescente (15 anos) chegou ensopada, com o vestido colado no corpo (que realmente a deixava nua), linda e afogueada, entrou em casa se esgueirando e ao mesmo tempo sorridente, travêssa. Nossa Mutti era viva quando do fato portanto Alma escreveu este soneto muitos anos depois do ocorrido. O vitalismo, alegria e integração de minha irmã com a Natureza eram comoventes, e ao recordá-lo não posso acreditar que ela se foi... (Lucia Welt)
De lobos e guris (de Alma Welt)
(196)
Minha mãe dizia haver um lobo
No bosque aqui perto e emboscado
E que eu deveria ter cuidado
E nem sequer ir ali com o meu Rôdo,
Pois meu irmão, guri bem destemido,
Não seria páreo pro vilão
E que depois de assado e comido
Eu seria a sobremesa alí à mão.
Mas a curiosidade era mais forte
E eu entrava com ele ou sozinha
Embora jogássemos com a sorte
Pois a verdade era que eu creía
Haver o lobo que comia criancinha,
E até hoje ainda creio: o lobo havia.
13/01/2007
O punhal nas águas (de Alma Welt)
244
Com meu Rôdo como sempre mergulhei
No poço da cascata esta tarde
E nas águas transparentes encontrei
Um punhal de prata de "compadre",
E o mano diz ser lance muito antigo
Que fazia um "gaucho de honor"
Que tivesse sido salvo por amigo
Cuja arma tivera mais valor.
E lembrei-me então da narrativa
De um velho boiadeiro meu vizinho
De como o pai deixara a vida ativa
Por ter ficado eterno devedor
De um que de seu filho era padrinho,
E salvara de si mesmo em dor de amor.
(sem data)
____________________________
Nota da editora
Este soneto Pampiano me pareceu de sentido não muito claro. Alma por sua paixão pelo Pampa, conhecia bem os costumes gaúchos, mas por vezes narra coisas obscuras, costumes e tradições que não encontrei meios de conferir. É verdade, porém que não tenho a entrada e o trânsito que ela tinha nos ambientes e na intimidade dos peões. Entretanto encontrei dentro de sua arca um punhal de prata antigo, magnífico, todo lavrado, que pode ser esse do soneto, encontrado no fundo do laguinho da cascata. (Lucia Welt)
À deriva (de Alma Welt)
247
Altas horas, silêncios rumorosos
De grilos, de sapos e os estalos
Do casarão com seus nichos tenebrosos
Por onde o Tempo escorre pelos ralos.
A casa arfa, suspira, sofre e geme
Com o peso de sua circunstância.
Como um barco náufrago, sem leme,
Que já não disfarça a sua ânsia,
A ausência de piloto é um mistério...
A poetisa, o jogador e a cosinheira
E um contra-mestre com nome de gaudério
Somos pois os tripulantes que vagamos
Dentro de uma nave sem esteira,
E não sabemos mais pra onde vamos.
15/01/2007
De pôquer, amor e cinismo (de Alma Welt)
248
Bom jogador mas cínico fantástico,
Meu irmão ganhou uma bolada,
Chegou jogando a pilha com elástico,
Dizendo: "É todo teu, não quero nada!"
"Só retirei um pouco para o jogo
Pois o pôquer bom é o seguinte,
A nova mão, o blefe e o logro,
Pois jogar é um roubo com requinte."
"Todavia se fizeres bom proveito
E levares este barco para adiante
Mesmo com a Poesia tua amante,"
"Eu me sentirei mais liberado
Pra ganhar ou perder com teu respeito
Pois a Alma sorri e sou amado..."
A blefadora (de Alma Welt)
251
Irmão, dá-me a mão, ó meu amigo
Entre este verde e o azul celeste!
Amanhã não estarás comigo
Mas sim na venal Punta de Leste.
À mesa, com as cartas, nem te lembras
Da dama com quem corres estes prados,
E só verás rainhas de outras lendas,
Valetes, reis e coringas abobados.
Embora saibas sempre que te quero
E a mão que tenha seja ruim,
Blefo ao fingir que não te espero.
Bah! Como sou boa jogadora!
Minhas cartas a esconder de mim
Numa aberta caixa de Pandora...
16/01/2007
Sonhos (de Alma Welt)
265
Meu corpo traz em sua memória
O toque e as carícias dos amados,
Homens e mulheres, e a história
Dos murmúrios e silêncios encontrados.
E assim, abandono-me no sonho
Carregada de vívidas lembranças
Como arquivo vivo que disponho
Para os dias de menos esperanças.
Eis porque acordo perturbada,
Menos por carência e mais paixão,
Por vezes uma ânsia exasperada,
E erguendo-me da noite na calada
Vou ao seu leito, em sonho da razão,*
Insinuar-me nua, assim, colada...
(sem data)
*Nota
O fato de Alma ter colocado como epígrafe a famosa frase encontrada numa gravura de Goya da série Caprichos denota a consciência plena de sua relação proibida, já bem conhecida de seus leitores. Todavia sempre achei que a beleza lírica que ela punha na abordagem dessa relação, a fazia transcendente, a justificava e absolvia. (Lucia Welt)
Aqui estarei... (de Alma Welt)
269
Aqui estarei, meu Rôdo, quando tudo
Naufragar em nós com o navio
Que é este casarão já quedo e mudo
A crepitar como uma vela sem pavio,
E nós, como sombras sorrateiras
Esgueirarmo-nos por estes corredores
Ou por este salão e suas soleiras
Que olharão para os últimos albores
Já a nos ver espectrais em cavalgadas
Ou mesmo a pé a vagar nas pradarias
Nas novas noites, eternas e tão frias...
Ai! Não mais claras manhãs, e orvalhadas,
Onde rindo perdoavas meus deslizes
E eu aos teus, por sermos tão felizes!
14/01/2007
Nota
(Encontrei agora mais este soneto que me fez chorar. Alma previa sua morte iminente e expressava seu amor desmedido por isto tudo, sua vontade de permanecer para sempre por aqui, mesmo vagando, sem manhãs orvalhadas. Mas... ela se via a vagar eternamente com Rôdo, o irmão amado.(Lucia Welt)
Meu overmundo (de Alma Welt)
271
Tive um sonho esta noite, recorrente,
Pois me pareceu bem familiar:
Eu morria jovem, de repente,
E não podia decidir quando voltar.
Antes me era dado ver o mundo,
Mas sem escolher hora e lugar
E teria assim meu overmundo
Pois que Deus me queria premiar.
Mas, bah! eu chorava de saudade
Do meu pampa, estância e casarão,
Minha querência, Rôdo, nossa herdade!
E tanto solucei, e o pé batia,
Que Deus não suportando a confusão
De cabeça me atirou na pradaria!...
14/11/2006
Nota
Surpreendentemente, encontrei hoje de manhã este soneto inédito da Alma, em sua arca, que evidencia que ela conhecia o poema de Murilo Mendes, e que este a inspirou de maneira singular. Mas pode-se perceber também a semelhança da cena por ela descrita com um outro texto, um belíssimo monólogo de Cathy Earnshaw (ou Cathy Lindon), do romance O Morro dos Ventos Uivantes( Wuthering Heights) de Emily Brönte, que Alma amava sobretudo, por sua imensa identificação com a personagem da charneca inglesa vitoriana). (Lucia Welt)
Palavras ao Vati (de Alma Welt)
275
Dá-me teu colo, Vati, estou carente,
A Açoriana acaba de afastar-me.
Eu sei, ela me acha delinqüente,
Somente tu, ó Vati, sabe amar-me.
Ela diz que me espevito ao ver "um macho",
Tu ou Rôdo, dia e noite, e sem que
Jamais, ela diz, "sossegue o facho"
Mesmo servida a minha quota de rebenque.
Mas, pai, foste tu que me criaste
E me disseste pra ser sempre verdadeira,
Que minha pele já propunha esse contraste
Com, do falso a escura face, escondida,
E que jamais porias na coleira
O ser que iluminou a tua vida!
O eterno retorno (de Alma Welt)
286
Contarei e cantarei até o fim
Dos meus dias como vou ao meu irmão
Encontrá-lo alta noite no seu sótão
Para entregar-me a ele e ele a mim.
E como, tateando no escuro
Nos longos corredores, já ardente,
Eu me dispo no caminho, de repente
Naquele impulso claro e escuro
Que me leva assim a dar-me e dar-me
E exausta adormecer sobre seu ombro
Depois de tanto cavalgar a sua carne.
E como, adormecida, recomponho
A clara roda de ir ao seu encontro
Na obscura clareza do meu sonho.
(sem data)
O jardim das memórias (de Alma Welt)
292
Minhas crianças amadas me rodeiam
E me fazem saber que sou feliz,
A mim, que não sou simples aprendiz
Pois beleza e alegria me permeiam
Desde guria, aqui, por estes pagos
Em torno ao casarão na pradaria:
De mãos dadas com Rôdo eu corria,
E os dedos já sentiam seus afagos
Que depois, no bosque, ou na cascata
Se estenderiam aos meus pequenos seios
Incipientes e brancos como nata.
Então eu me enterneço duplamente
Ao brincar neste jardim com seus enleios
Que me levam a mim mesma novamente.
24/11/2006
Das noites no jardim (de Alma Welt)
294
Guria apenas, do quarto meu, fugia
Pela janela, de noite, já contei,
Para ir ao jardim que tanto amei
Para ver dos pirilampos a folia.
E rodava sob o meu lustre da lua
A branca camisola qual princesa
Que valsasse num palácio de grandeza
Com a minha sombra logo nua.
E então me deitava, esfusiante,
No tecido, assim, pra não coçar
E me punha branca a me lunar
Sentindo que meu corpo coruscante
Estava ali, aberto, sob o olhar
De meu irmão, no sótão, vigilante.
(sin data)
A fada da minha mente (de Alma Welt)
296
Esta noite irei ao meu pomar,
Apesar de escura e enevoada.
Ali estarei com minha fada
Com quem combinei de me encontrar.
Rôdo, mas só ele, está ciente,
Pois os outros não podem suspeitar.
Estou em perigo, ultimamente,
Há quem queira mesmo me internar.*
Na minha "Grande Noite de Walpurgis",*
Quando terminei por levitar,
Todos os deuses vieram me encontrar...
Mas o espanto agora é diferente:
"Ó minha fada, eu sinto quando surges
A partir da minha própria mente!"
18/12/2005
Nota
*"Grande Noite de Walpurgis" - Alusão à "Noite Clássica de Walpurgis", cena apoteótica, magistral e iniciática do Fausto, de Goethe. Trata-se de uma grande reunião ou Orgia dionísiaca, de todos os deuses da Grecia Antiga, a que Fausto assiste com a ajuda de Mefistófeles. A cena é longuíssima, extremamente erudita e cheia de ocultismo. Há mesmo estudiosos que se debruçaram anos a fio sobre o estudo dessa parte do Fausto, inclusive teses de doutorado.
Alma assim se refere à sua experiência mística pagã, de invocação mágica dos deuses e numes do Pampa, diante de sua macieira sagrada do pomar, que está descrita magistralmente em certo capítulo do seu romance A Herança, e sucintamente no seu soneto "Todos os deuses", postado nos blogs Vida e Obra de Alma Welt, e nos Sonetos de Mistérios da Alma. (Lucia Welt)
* ... me internar"- Alma temia ser internada como afinal realmente o foi, numa Clínica pouco depois da data deste soneto. Mas não é verdade que queríamos interná-la. Fomos pegos de surpresa, quando ela sumiu num sábado e foi encontrada por nós que a procurávamos preocupadíssimos, em lamentável estado vagando no bosque, fora de si, com o vestido rasgado e arranhões nos seios e nas coxas, que suspeitamos como vestígios de estupro.(Lucia Welt)
Sonidos de la noche (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)
Las paredes viejas de esta casa
Me traen los sonidos de otra era
Cual ala negra o un tonel que vaza,
Llenos del dolor que reverbera.
Distingo en la noche los gemidos
De las hijas del pobre Valentim,
La grita de su viuda, los ladridos
Y el aullido triste del fiel mastín
Allá, al pie del cuerpo que pendía
De la viga en el sótano sufrido
Donde el bello Rodo dormiría,
Hermano inocente y confundido,
Su sueño a acunar la algarabía
De otro corazón tan prohibido.
______________________________
Nota
Mais un soneto em que Alma insere menção à sua relação com nosso irmão Rodo. Entretanto pareceu-me detectar aqui, pela primeira vez, uma nota de consciência (não de culpa) da proibição dessa relação.(Lucia Welt)
O prelúdio sem fim (de Alma Welt)
311
Uma vez, voltando do meu prado
E já atravessando o nosso mate,
Ouvi um prelúdio executado
Por alguém que só podia ser o Vati.
Corri pelo jardim, logo o salão,
E chegando ao escritório para vê-lo
Surpreendi-me ao encontrar o irmão
Como de praxe a coçar o cotovelo.
Onde? Onde está nosso maestro?
Eu indaguei, espantada e meio tonta.
Quero ouvi-lo, me parece falta um resto!
"Minha irmã"- disse ele sério para mim-
"É um prelúdio para ti, não faça conta,
Que jamais irei tocá-lo até o fim..."
(sem data)
Acabo de encontrar este soneto na arca da Alma, que me dei conta de ser inédito, nunca publicado por ela ou por mim. Fui testemunha desse episódio. Rodo tocava piano maravilhosamente e compunha, raramente. Alma achava que ele desperdiçava seu talento, dedicando-se cada vez mais ao pôquer. Mas me parece que, ele ter composto um prelúdio inacabado para a sua Alma, contém uma vaga alegoria... (Lucia Welt)
Camerata pampiana (de Alma Welt)
315
Corramos, meu irmão, depressa, vamos!
Pois temos muito chão nesta campina,
Se pro almoço atrasados, só, chegamos,
Haverá solo de relho e em surdina.
A Açoriana, maestrina, nos espera
Com a batuta na mão, e de marmelo.
Nos “fortíssimos” é onde ela se esmera,
Dos quais tenho um medo que me pelo.
Mas, bah! meu Rodo, valeu tanto
Ter estado contigo em camerata,
Nossos arpejos, sem pejos, na cascata...
Ai! Minha pele canta como os lábios
Lembrando teus abraços e o encanto
Dos teus “pianíssimos” tão sábios!
03/09/2006
Notas
Acabo de encontrar este soneto encantador na arca de inéditos da Alma. Suspeito que muitos sonetos ainda encontrarei tão primorosos como este, que nunca foram publicados pela Alma em nenhum site. Já são bem mais de 1.000 os sonetos dela compilados por mim até o momento. (Lucia Welt)
*Açoriana- como muitos já sabem, é como somente a Alma chamava nossa mãe, Ana Morgado, chamada "Mutti" por nós. Nossa mãe era muito católica e severa, ao contrário de nosso pai, o Vati, que criou a Alma como "uma pequena pagã". Havia muita dificuldade de relacionamento entre elas desde a infância, pois minha mãe temia o temperamento artístico exacerbado de minha irmã. Não obstante, creio que elas se amavam...
Primeiro amor (de Alma Welt)
318
Amores como sonhos se desfazem
Tênues como teias entre as ramas
Se deixamos de urdir as nossas tramas
Enquanto as ilusões se liquefazem.
Mas resta o amor que ainda esperas,
Somente aquele um, da nossa infância,
O beijo virginal de uma criança
Que reconhecemos de outras eras.
Os olhos de uma corça em seu candor
E o cheiro, ah! o perfume de uma boca
De pequenos lábios como flor
De que perseguiremos o respiro
(conquanto uma só vida seja pouca),
De cujo alento é feito o último suspiro.
(sem data)
Nota
Deslumbrada encontrei este soneto, sem data, na arca da Alma, e que fui logo conferir, o que é possivel graças ao instrumento de pesquisa dos blogs, e confirmei ser inédito. Alma, nele se refere ao primeiro amor,definitivo, que para alguns acontece ainda na infância, como foi o caso dela, nós sabemos por quem... (Lucia Welt)
Adeus Pampa (de Alma Welt)
338
Pampa amado de minha juventude,
Da guria que fui e ainda sou!
Dói-me demais saber que não mais pude
Prorrogar os prazos que me dou.
Devo partir, eu sei, chegou o fim,
O Grande Gáltcho recusou a apelação,
A última que fiz, não só por mim
Mas por meu amor e meu irmão.
Por Lucia, Matilde e o bom Galdério,
Pelos guris no jardim do casarão,
E o bosque que me foi um refrigério.
Ah! A biblioteca imensa e amada
Também sala do "piano do patrão",
E, ai! Rodo, nossa alcova na mansarda...
18/01/2007
Onde vivem os deuses (de Alma Welt)
344
E eu cantaria o amor que me coubera
Ao nascer de novo nestes pagos
Isolados do mundo, noutra era,
Onde vivem os deuses e os magos.
Aqui me apaixonei por meu irmão,
Que como Eros piá vivia alado,
Sem dar-nos conta da cruel proibição,
Pois somente guiados pelo Fado.
Eis que num certo dia, aziago,
Fomos flagrados ao pé da minha Ara
Num lance que faria grande estrago
Não fora em nós a reverência e a fé
Nos nossos velhos deuses, coisa rara,
Que nos salvou o amor e... a alma até.
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar na arca este soneto de tema recorrente, onde Alma atribui à sua fé nos deuses a preservação da pureza de seu amor proibido, legitimado por ela em termos poéticos e estéticos, senão históricos e sociais, durante toda a sua vida. (Lucia Welt)
A Árvore dos Sonhos (de Alma Welt)
346
As coisas que amamos nos dão paz
E levam-nos de volta às raízes
Do ser, ou dos seres tão felizes
Que fomos quando éramos piás.
Ali, ante a árvore dos sonhos
Antes do escândalo e do susto
Quando vida e mundo eram risonhos
E ainda não sabíamos o custo,
Prosternei-me um dia sem rancor
E sem mais a memória de horror
De quando tive a inocência violada
Debaixo dessa velha macieira
Que permanece pura e intocada
E a me ensinar a ser dessa maneira.
08/12/2006
Amores meus! (de Alma Welt)
362
Amores meus, mitos sagrados,
Ícones de minh’alma agradecida,
Quão grata sou aos meus amados
Por se deixarem ser em minha vida!
Aquele inaugurou meu próprio ser
Debaixo da Árvore da Inocência
A que escolhi na aurora pertencer,
Malgrado dúbio fruto e consciência;
Outro, tão ardente e de meu sexo,
Que colada a mim me duplicava,
Pois que ainda sinto o seu amplexo...
E outro e mais outro, como açoites,
Rubras flechas tiradas de uma aljava
E lançadas de mim nas minhas noites...
16/01/2007
O ninho da Salamandra (de Alma Welt)
370
Iremos lá, àquele Cerro, meu irmão,
Como fomos juntos às Missões,
Sete Povos, lembra? num verão,
Quando a lenda nos tocou os corações.
Mas ao Jarau iremos delirantes
E assim encontraremos o caminho
E chegaremos à sala dos diamantes
Onde a Salamandra fez seu ninho.
E seguiremos, eu sei, e não malditos
Pois não somos movidos por ganância,
Mas pela graça de nossa leda infância.
Quanto ao ouro e o poder, estes gigantes
Não nos poderão deixar aflitos,
Que o tesouro vive em nós e vem de antes.
14/10/2006
Missões- Alma se refere aos Sete Povos das Missões, conjunto de ruinas grandiosas das "reduções" jesuítas no Pampa riograndense, que Alma e Rodo visitaram algumas vezes, à primeira vez ainda guris, com o nosso Vati.
* (Cerro do) Jarau- Alma se refere à lenda gaúcha da Salamanca do Jarau, de origem popular anônima pampiana, mas consagrada na versão do escritor gaúcho Simões Lopez Netto em 1913. Note-se que há versões em que a palavra Salamanca (da princesa moura que vem dessa terra de Espanha) se torna Salamandra, o elemental do fogo, que na lenda é chamada de Teiniaguá. (Lucia Welt)
Sonho e projeção (de Alma Welt)
382
Nas noites da estância há muito brilho,
Quero dizer, outro brilho que não meu,
Como o comboio da lua no seu trilho,
A viagem que meu pai me prometeu.
Sim, quando guria no seu colo,
Ele me apontando a Branca Via,
Turnê brilhante de uma carreira solo,
Que assim no seu sonho ele me via...
Mas de cabelos soltos, muito branca,
Ladeada por ele e pelo irmão
Eu sonhava que ali cavalgaria.
E era essa a imagem pura e franca
Que eu fazia dele mesmo em projeção
Pois meu mundo era pleno, e eu sabia...
(sem data)
Fênix (de Alma Welt)
384
Toda a experiência acumulada
Foi vã diante da força do momento
De emoção pungente e desatada
Produzida por antigo sentimento
Que voltou a mim como um pampeiro
Quando confrontei meu próprio amor
Ao vê-lo adentrar o meu terreiro
Vindo em minha direção... o predador!
E então, ó santa ingenuidade!
Um rubor me sobe, ó inocência!
E o tremor substitui toda a saudade.
E como uma donzela de outra era
Voltei a sonhar a tal quimera
Do primeiro amor em sua demência...
(sem data)
Notícias do Front (de Alma Welt)
988
As notícias do front carteado
Chegam por Matilde até mim
Quando estou vagando pelo prado
Ou devaneando no jardim.
Rodo ganhou! Está a caminho!
Vem vindo no seu bólido vermelho,
E eu, entre a vergonha e o carinho
Preciso correr até o espelho.
E me vejo perdida em outra vida,
Alienada, meus sonhos pelo chão,
A esperar que uma cartada me decida...
O que quero? Que tenho eu com a sorte
Nas cartas vitoriosas de um irmão,
Se a minha é sempre a tal, da Morte?
06/01/2007