segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

A Queixosa ( de Alma Welt0

Ando muito só e triste, Deus me cuide...
Foram-se todos os que me eram caros,
E daqueles bons amigos, muito raros,
Vi pequenas traições, mas amiúde.

Ora, Alma- digo então para mim mesma-
Estás aí a te queixares, que vergonha!
Agora és para ti tua abantesma,
Em vez de só molhares a tua fronha.

Mas Rodo, meu irmão que é meu esteio,
Meu coração perdido de si mesmo,
Caiu no mundo a jogar dados a esmo...

Mas Alma! - a resposta a mim me veio...
Não há dados novos, te dás conta?
Tua vida é tão rica... e nasceu pronta.
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21/02/2022

domingo, 13 de setembro de 2020

Notícias de Rodo (de Alma Welt)

"Alma"- apresentou-se o visitante:
"De Baden Baden venho muito aflito
Pois teu irmão, que era o meu mito,
Perdeu tudo e queria ir adiante..."

"Não logrei, pois, arrastá-lo do Cassino.
Naquela mesa estava já há dias,
Perdera todas suas economias,
Simplesmente murmurando ser destino."

"Por quê o abandonaste?" Eu perguntei.
"Se és seu amigo, por que vem à sua irmã
Deixá-la aflita, logo assim pela manhã?"

"Não, não conheces Rodo. O meu irmão
Perde apenas o que eu mesma lhe dei
Como cacife para começar a mão..."

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13/092020

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

A Abelha e a Vespa (de Alma Welt)

De repente estava fora do meu meio,
Perdera o meu encaixe original
E achando agora quase tudo feio,
Até mesmo este meu torrão natal...

Meu irmão então me disse: "Vem comigo
Vou te mostrar o mundo verdadeiro,
Que está muito mais para um vespeiro
Que a colmeia que crês que é teu abrigo."

Carregou-me com ele mundo afora,
Mas no circuito de criaturas vis
Onde a dúbia emoção do jogo mora.

E eu disse: "Estou de novo sem encaixe
E cobiçada demais para ser feliz:
Antes abelha que à vespa me rebaixe..."

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03/09/2020

domingo, 23 de agosto de 2020

O coração da vida (de Alma Welt)

Não te vás, ó Rodo, eu te suplico!
Devolvo a chave, sei, fui atrevida.
Falo demais, talvez, complico,
Mas estamos no coração da Vida,

O mundo está aqui como lá fora.
Ou o vejo daqui, por isso fico.
Por quê tens, irmão, que ir embora
Só porque só sei jogar o mico?

Coração sempre tiveste destemido,
Sou tola e pegajosa, que sei eu?
Anseias o teu pôquer de bandido...

Não tens mais paciência com a guria.
Onde, pois, a aventureira se meteu?
Que escreve, chora e se angustia...

25//11/2006

Nota

Acabo de encontrar esta joia na Arca da Alma, que muito me comoveu. É bem da Alma, em sua paixão de toda uma vida por nosso irmão mais novo, este, sim, aventureiro, homem de ação, apaixonado por carros esporte, velocidade, e pôquer internacional, perigoso. Depois de moço, não parava em casa e corria o mundo, em longas temporadas, percorrendo cassinos e até casas clandestinas de jogo. Muitas vezes esteve em perigo de morte. Alma, companheira sua de infância, de todas as horas, sentia sua falta como de um amor perdido. (Lucia Welt)

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El corazón de la vida (Alma Welt)
(versão al castellano de Lucia Welt)

No te vayas, O Rodo, te lo ruego!
Tomé la clave, lo sé, gesto atrevido.
Hablo por demás, con tanto fuego;
De la vida el corazón no está perdido,

El mundo está aquí y en otras partes.
Pero lo vedo desde acá, por eso resto.
Sin embargo, hermano, no te apartes,
Si como jugadora no me presto.

El coraje tienes, desmedido…
Soy tonta y pegajosa, qué sé yo?
Anhelas por tu póquer de bandido…

Paciencia ya non hay con “la niña”,
Cuyo don de aventura se perdió,
Y escribe, y que el llanto la defiña...

31/01/2010






terça-feira, 30 de junho de 2020

O Vulto Noturno (de Alma Welt)

Pedi rima para "amor" e jamais "ouro"
Quando o vulto o soprou ao meu ouvido:
"Não rima mas o efeito é duradouro",
E eu no sonho o expulsei por presumido.

"Sou rico!" de manhã o irmão gritava:
Mostrando de dinheiro uns grandes maços.
E eu, guria, um soneto lhe mostrava,
No meio da euforia dos abraços...

"De onde veio toda essa dinheirama?",
Temerosa perguntei ao meu irmão,
Já que os dias passava em sua cama.

-"Um vulto dava cartas no meu sono,
E eu no pôquer me faltando boa mão,
Pedi "ouro" e ajoelhei ante seu trono..."

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27/07/2016

Sting - Shape of My Heart (Leon)

sexta-feira, 6 de março de 2020

O naipe do meu coração (Poema- canção de STING, em versão de Lucia Welt ( Epígrafe para este blog dos Sonetos de poker, do Rodo, de Alma Welt)

  https://youtu.be/pm3rDbXbZRI

O naipe do meu coração
(canção de autoria do STING,
 que fecha o belo filme "O Profissional", de Luc Besson)

Ele lida com as cartas como uma meditação
E aqueles com quem ele joga nunca suspeitam
Que ele não joga pelo dinheiro que ganha
Ele não joga por respeito

Ele negocia as cartas para encontrar a resposta
A geometria sagrada do acaso
Na lei oculta de um resultado provável
Os números conduzem uma dança

Eu sei que  "spades" são as espadas de um soldado
Eu sei que os "clubs" são armas de guerra
Eu sei que "diamonds" significam dinheiro nesta arte
Mas esse não é o naipe do meu coração

Ele pode jogar o valete de diamantes
Ele pode colocar a rainha de espadas
Ele pode esconder um rei na mão
Enquanto sua memória  se apaga

Eu sei que as "spades" são as espadas de um soldado
Eu sei que os clubs são armas de guerra
Eu sei que diamonds significam dinheiro nesta arte
Mas esse não é o naipe do meu coração

E se eu te dissesse que te amava
Você talvez ache que há algo errado
Eu não sou um homem de muitos rostos
A máscara que eu uso é única.

Bem, quem fala nada sabe
E descubro o seu custo
Como aqueles que amaldiçoam a sorte por aí
E aqueles que temem estão perdidos

Eu sei que as "spades" são as espadas de um soldado
Eu sei que os "clubs" são armas de guerra
Eu sei que "diamonds" significam dinheiro nesta arte
Mas esse não é o naipe do meu coração
Esse não é o naipe,o naipe do meu coração
Esse não é o naipe, o naipe do meu coração
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terça-feira, 10 de abril de 2018

Quê mistério... (Alma Welt)

Quê mistério a vida é, quão espantoso!
A rigor tudo é milagre, se pensamos...
Dormir e sonhar são um dos ramos
Da Árvore da Vida em pleno gozo.

Mas em quê pesadelo a transformamos
Em nosso recebido arbítrio livre
Que, se nos define enquanto humanos
Também cria o Inferno que em nós vive.

Sempre uma e outra coisa, sempre extremos,
Sempre dupla a visão ou o conceito,
Dupla chance ou falsa escolha temos...

Quantas vezes quando estou desesperada
Peço a Deus mais uma mão, nova cartada,
Outra rodada de blefes no meu peito...

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22/03/2018

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O Pampa é minha charneca (de Alma Welt)

O pampa é minha espécie de charneca *
E a coxilha também ostenta cruzes,
Mas se não caminho sobre urzes *
Por falta de mau vento ela não peca.

Também tive e amei meu Heathcliff *
Que, jogador, um dia ele se foi.
E eu que jogava sem cacife
Fiquei a ver lanchão puxado a boi. *

Anos perdidos, até o amor voltar,
Mas pai e mãe fui eu quem enterrou,
Ele só veio, como outro, me cobrar... *

E agora o casarão jaz assombrado
Mas o jogo continua onde parou
O mesmo fio, um amor nunca acabado... *

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01/08/2017

Notas
*... charneca - trata-se da região plana com ondulações do norte da Inglaterra, cenário celebrado do célebre romance inglês de Emily Brontë (amado pela Alma) "Wuthering Heights" (O Morro dos Ventos Uivantes). Pelo visto a Alma Welt se identificava muito com a Catherine Earnshaw, heroína daquele maravilhoso romance.

*Mas se não caminho sobre urzes- a vegetação rasteira da charneca se constitui principalmente de urzes, enquanto na coxilha pampiana, é o capim e outras ervas. Flores silvestres existem em ambas...

*Também tive e amei meu Heathcliff - Alma associa o grande personagem masculino do romance de Emily Brontë, Heathcliff , com o seu irmão Rodo, jogador de poker, de características parecidas, apaixonado, intenso, brutal.

* Fiquei a ver lanchão puxado a boi- expressão pampiana criada pela Alma, equivalente a "fiquei a ver navios", e derivada do episódio da Revolução Farroupilha, do transporte épico dos lanchões de Garibaldi, por quilômetros pela coxilha, em cima de carros puxados por juntas de dezenas de bois, para colocá-los na Lagoa dos Patos, para entrar em combate naval com a esquadra imperial.

*Ele só veio, como outro, me cobrar- Heathcliff, tendo ido embora, depois de muitos anos volta rico, esperando casar-se afinal com Catherine , mas a encontra já casada. Então dedica-se a um diabólica vingança por seu amor traído...

*O mesmo fio, um amor nunca acabado - o final do romance dá a entender que o amor de Cathy e Heatcliff não termina nem com a morte dos dois, tomando um cunho espectral, gótico, típico do romantismo inglês...

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A Perda (de Alma Welt)

Tive na vida um momento de pavor
E até hoje eu medito sobre isso,
Embora estivesse em pleno viço
E minha vida se abrindo como flor.


Para manter a minha integridade
Precisei de um elemento agregador,
Com o cimento forte da Verdade
E uma resistência ao mal e à dor.


Era uma vez um jardim e uma estância,
Onde tudo era inocente em nossa infância
E nem tínhamos sequer dentes de siso

Foi quando minha mãe num dado instante
Pegou a mim e ao mano num flagrante
Que, tão puros, nos custou o Paraíso...

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05/07/2017

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O segredo de meu pai (de Alma Welt)

"Haveremos de nos encontrar um dia",
Disse meu pai no seu leito de morte.
"Eu, tu, tua mãe saudosa e tua tia,
Junto com dos anjos toda a coorte..."

Assim disse meu pai quando morria,
E então deixei passar, de tão chocada,
Este dado, sutil, que eu percebia:
Por quê fora minha tia mencionada?

Passaram-se os meses, logo um ano,
E um dia um sorriso e uma covinha
Denunciaram o meu querido mano.

De minha mãe, por certo, não os herdara,
E aquela aventureira audácia rara
Eu agora sabia de onde vinha...

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20/02/2017

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Ação e pensamento (de Alma Welt)

A solidão é a mãe do pensamento
E a ação é nossa irmã instigadora...
Quanto a mim, tive uma mãe inibidora,
Mas meu irmão... um pé de vento.

Rodo, pequeno aventureiro de quintal,
Lembro de vê-lo pulando a nossa cerca
Para ir buscar um pinheiro de Natal,
Conquanto a inocência logo perca.

Depois o jogo, as cartas sobre a mesa
Certamente não pra ler nosso futuro,
Mas sim para jogá-lo na incerteza.

O equilíbrio, cada um no seu lugar,
Foi conseguido afinal com certo apuro
Entre ação e pensamento, terra e ar...

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17/02/2017

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O blefe e a poesia (de Alma Welt)



O blefe e a poesia (de Alma Welt)

"A poesia é só coisa de maluco",
Dizia Rodo, meu irmão, jogando truco,
Atirando as cartas, forte, sobre a mesa,
O que me deixava tensa e tesa.

Mas sentindo certa falta do curinga
Meu irmão logo pro poker se virou,
O que ocorre se a poesia afinal vinga
Pois bom blefe nem o Freud detectou...

E lá foi ele, descendo a correnteza,
A esconder sua mão e sentimentos
Enquanto eu punha a alma sobre a mesa.

Mas como admiro sua postura!
Com meus pudores e arrependimentos
De abrir assim a alma, embora pura...

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21/12/2016

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O sedutor (de Alma Welt)

"Báh! Vamo-nos daqui!"- dizia o irmão.
"O mundo é grande, vasto glorioso
Mas começa só além deste portão,
Que este casulo, sim, é perigoso."

"Cabelo ao vento, vem comigo na Ferrari
À fiel Punta de Leste no Uruguay,
Depois ao Chile à vã Viña del Mare
Onde um noviço jogador primeiro vai..."

"Se tiveres um pouquinho de talento
E deixares para trás este convento.
Te ensinarei os bons blefes e truques."

E eu olhava para ele, enternecida,
E pedia para me mostrar os muques,
Tentada, hesitante, seduzida...

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14/10/2016

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

O Boato (de Alma Welt)

Disseram-me que Rodo estava morto....
Montada em meu cavalo desmaiei
E acordei como saída de um aborto,
Perdida, sem vontade e sem mais lei.

Mas era boato, mentira de inimigo
Que buscava destruir nossa família,
Pois jogando, Rodo era uma ilha
Olhando nada além do seu umbigo.

Ouvi o ronco do seu carro na estrada
E corri para porteira, desvairada
Para abraçá-lo até desfalecer.

Então, ele, com seus olhos inocentes
Disse: Irmã, conheço tudo o que tu sentes,
Não precisas mais blefar pra me reter...

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07/09/2016

O aventureiro (de Alma Welt)

A vida é lindamente perigosa,
Diz Rodo, meu irmão aventureiro,
Com aquele ar astuto de raposa
Que acabou de arrombar o galinheiro.

Venha comigo, Alma, pela estrada,
Vamos juntos aos cassinos jogar tudo!
Ontem, por um triz, um quase nada,
Inverti a lei do jogo, "lex ludo"...

Quase quebrei a banca na roleta
E saí na minha Ferrari à contramão
Despistando uma outra bem suspeita.

No poker, mais bonita e provocante
Poderei resgatar-te numa mão *
E te darei metade do montante...

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07/09/2016

Nota
*"Poderei resgatar-te numa mão" - Na verdade, isso ocorreu muitos anos atrás, quando Rodo, acompanhado da Alma no auge de sua beleza, jogou sua própria irmã no poker (além de jogar a estância também) numa mesa de profissionais e milionários, e... ganhou. E ao que parece, Alma o perdoou. Vejam o soneto abaixo:

O Rei dos Descalabros (de Alma Welt)

Acendam luzes, velas, candelabros,
Quero a casa em festa nesta noite!
Alguns o chamam “rei dos descalabros”,
Mas peço, não me impeçam que me afoite.

Jogou a nossa estância... mas ganhou!
Até este casarão trocou em fichas.
Com sua própria irmã ele dobrou
E uma fortuna fez, de velhas rixas...

Para saudar o aventureiro, acenderei!
Vou esperá-lo na varanda com champanhe,
Não o censurarei... Deus me acompanhe!

Para não ser comedida com o sortudo,
Ao abraçá-lo forte, esquecerei
Ter jogado minha carne, alma, e tudo...

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sem data

sexta-feira, 3 de junho de 2016

O Filho Pródigo ( de Alma Welt)


O desgosto de meu pai não terei sido
Apesar de ser poeta desde cedo
E portanto o meu punho ter erguido
Contra a sujeição e o engano ledo.

Meu irmão é que foi o filho pródigo
Correndo mundo atrás das aventuras,
Mas sempre através do mesmo código:
Quatro naipes e as suas diabruras...

Mas ao contrário da irmã acomodada
Que reclama iguais cuidados e carinho,
Fui do bom diabo a advogada:

"Perdoa, pai, meu tresloucado irmão!
Ele é bom no que faz longe do ninho
E não tirou um palmo ao nosso chão..." 

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Os jogos da Paixão (de Alma Welt)


                                     Foto: um Royal Straight Flush

 Os jogos da Paixão (de Alma Welt)

Rodo me disse um dia: “És romântica
E ficas por aqui a fazer verso...
Meu coração nada sabe de semântica,
Venha comigo conhecer meu universo.”

Assim foi que acompanhei-o ao cassino
E observei-o em suas falcatruas
Ou em manhas de raposa ou de felino
E depois em sua Ferrari pelas ruas.

Mas então pelo final da temporada,
Lhe disse enfim olhando-o ternamente:
“Sim, tu levas uma vida arriscada...”

“Não há maior romantismo, meu irmão.
Em copas teu baralho blefa e mente,
Mas jamais abandonas tua paixão...”
 


domingo, 10 de março de 2013

Quando chegarem (Alma Welt)


                                                foto: Andre Garban 1930

Quando chegarem (Alma Welt)

Quando chegarem os dias de tristeza,
Que esses dias fatalmente hão de vir,
E o céu baixar perdendo sua leveza
E as noites já não forem pra dormir

Mas não como na louca juventude
Quando a preenchíamos ardente
De abraços e canções de plenitude
Qual se fôramos viver eternamente,

Então, Rodo, meu amor, que não me vejas
Se eu perder minha beleza do início
Que fruístes no meu tempo das certezas,

E me agarrarei a uma lembrança
De mim nos teus olhos como vício,
Que neles eu me via em esperança...

sábado, 2 de março de 2013

Casanova (de Alma Welt)


Báh! como foram belos os nossos dias!
Tu não te lembras, amor? Tão inocentes!
Não havia nem sombras de agonias,
Sereno era o amor, e sem repentes...

Eu bem podia contar com teus carinhos
Desde o alvorecer esfuziante
Até o adormecer nos nossos ninhos,
Após um dia de sonho deslumbrante...

Não me renegues, pois, deitando as cartas
Que não aquelas ternas que trocamos,
Enquanto de outras damas tu te fartas.

Leviano Casanova te tornaste,
Com isso nem contava o Nostradamus
Muito menos esta mão que descartaste...

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Caim às avessas (de Alma Welt)





  Eros e Psiqué -  desenho de Guilherme de Faria
 

Caim às avessas (de Alma Welt)

Refém da memória eu me recordo
De tudo quase tudo a que quis dar-me
Desde que de manhã cedo acordo
Até de noite na hora de deitar-me.

E foi sempre ao belo e à poesia
Que entreguei meu corpo e coração.
“Hipócrita!” Ouço o grito na coxia.
“Primeiro te entregaste ao teu irmão!”

Se Caim sou às avessas, não matei.
E quanto à voz de Deus a repreender-me,
Só consigo me lembrar do que falei

Quando me alteei e ergui o rosto:

"Senhor, do amor não hei de arrepender-me,"
“Regalo da vida o que é de gosto..."
 
 

domingo, 30 de dezembro de 2012

A Barca (de Alma Welt)

Alma no trigal- óleo s/ tela de Guilherme de Faria 2012
 
 
A Barca (de Alma Welt)

Meu consolo é restar entre os poetas,
Que já não tenho por aqui o meu lugar,
Que me olham de lado ou lançam setas
Que por vezes me atingem o calcanhar.

E eis-me uma poeta manca e tola, *
A claudicar na coxilha sob as nuvens! *
De noite um bacurau, de dia, rola,
Enquanto, Rodo, bem podias mas não vens...

E quê vergonha corro o risco de sentir
Se por acaso eu tiver que repassar
Meus inúteis versos num porvir!

Talvez pusesse fogo nesta arca
Se eu tivesse a coragem de passar
Como suave vento em minha barca...

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Notas
* ... manca e tola- notem que essas duas palavras soam como "manquitola" , isto é manquinha...

* a claudicar sob as nuvens- Com claudicar=mancar, Alma ao mesmo tempo ecoa foneticamente a palavra inglesa "clouds"= nuvens.

domingo, 4 de novembro de 2012

Jogos perigosos (de Alma Welt)




 
Jogos perigosos (de Alma Welt)

Amor meu, continuo a esperar-te
Nesta varanda antiga, que amavas,
E onde juntos ficávamos à parte,
Que do resto da família te apartavas...

 Odiavas a censura que caía
Sob este nosso amor tão proibido
Que até mesmo nosso olhar traía
Pois sempre grande amor se faz libido..

Então tinhas que procurar o mundo
Através de outro jogo que não este
Que a ambos levaria para o fundo...

E agora em outras cartas perigosas
Do jogo respeitável que escolheste
Colhes damas de espadas, que não rosas...
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Nota
Significado da carta Dama de Espadas

A carta Dama de Espadas mostra-nos uma imagem arquetípica de uma dama no trono, que chegou rapidamente à posição actual devido à sua forma perspicaz de pensar e agir.

É uma pessoa franca e simples, com um raciocínio muito rápido e directo ao assunto especialmente em relação ao que se pode atingir e ao que se deve evitar.

Quando esta carta for lançada na posição Presente, é provável que veja alguma coincidência com as suas características positivas, que a mostram como uma pessoa franca e directa ao assunto. Também nos indica que deverá usar sempre a inteligência, experiência e esperteza para conseguir atingir os seus objectivos.

Como carta de Obstáculo, esta sugere-lhe que poderá estar a eliminar as suas necessidades emocionais em prol da frontalidade e intelecto. Uma outra hipótese poderá ser o facto de persistir a ideia que tudo e todos em seu redor estão mal.


Read more: Web Tarot » Dama de Espadas http://www.web-tarot.com/pt/os-arcanos-menores/naipe-de-espadas/dama-de-espadas.html#ixzz2BHvHlsx8

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Odisséia nerd (de Alma Welt)


 
Odisséia nerd (de Alma Welt)

Quem chega pela estrada da coxilha
Avista ao longe o nosso casarão
E na varanda como praia de uma ilha,
A mim, a perscrutar a imensidão

Na minha eterna espera de Odisseu-
Rodo, jovem jogador pelos cassinos,
Que se chegar será com grito de pneu
E não com o bater lento de sinos...

Mas ao mastro no meio do arrecife
Daquelas belas Marias-pano-verde,
Vai Odisseu, chegado nas sereias,

Enquanto eu, sem mais fichas nem cacife,
No tear-computador, como uma nerd,
Eternamente a desfiar as minha teias...
 

sábado, 14 de julho de 2012

Cartas na mesa (de Alma Welt)


Meu amor, hás de restar depois de mim
E chorarás por fim, como eu por ti
Que fatalmente hei de acabar assim,
Uma fonte a minar pra sempre, aqui
Na coxilha acostumada com meus ais
Enquanto conto as sílabas nos dedos
Pr’ o coração não esperar de ti demais
Mas somente os meus próprios versos ledos.
Sei que amas mais que a mim as tuas cartas,
Na falta delas nem poderás me amar,
Conquanto eu não impeça que tu partas.
Sei que não há injustiça no Destino,
Nem nessa carta que tiramos ao azar,
Branca dama a tanger um violino...

sábado, 30 de junho de 2012

A Penélope do Pano Verde (de Alma Welt)


Eis que se tornou um ilusionista
O mais jovem de nós aqui na estância,
E então essa atitude imprevista
Deu por encerrada a nossa infância

Quando voltou-se ele para o jogo,
De pôquer, para ser mais específica,
Indiferente ao meu sincero rogo
Ou ameaças desta alma tão pacífica.

E então começou a nova saga
De distância e reencontros breves,
As cartas oscilando safra e praga...
Foi assim que a tal Penélope virei,
Enquanto desfazia com mãos leves,
Tristes teias à espera do meu rei...


domingo, 24 de junho de 2012






Palavras do Rodo (de Alma Welt)

"Iremos, minha irmã, até o topo
De nossas ilusões, sonhos e metas,
Sempre atentos a não perder o escopo,
Tu, com essa mão do sal com que sonetas,"
"Eu, nos venais cassinos deste mundo
Pela trilha abismal do pano verde;
Tu, nos versos com o teu pensar rotundo,
A negacear um navegante nada nerd."
"Mas quando em janeiro entrecruzamos
Nossas órbitas, o distante e a saudosa,
De novo como sempre nos amamos."
"E por um mês inteiro, talvez dois,
Retornamos à parelha escandalosa
Que não deixara o amor para depois..."

segunda-feira, 30 de abril de 2012


O Espelho Matinal - Litografia de Guilherme de Faria


Matilde e o Meu Espelho (de Alma Welt)

 Matilde me desperta com um espelho
 Dizendo entre severa e carinhosa:
 “Vê este belo cabelo tão vermelho
 E esta máscara de louça preciosa?”


 “Não serão "siempre asi", ó minha "niña,"
E envelhecerás como todos os mortais.
Reparaste que nas uvas a gavinha
Logo prudente se agarra nos varais? “


 “Puseste tua esperança nos teus versos,
 Mira que estás aqui "siempre solita"
 A esperar teus amores "tan" dispersos."


O maior deles joga as tuas cartas:
A tua casa e "tu carne tan bonita"
Porque crê que de esperá-lo não te fartas...

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Os Espectros (de Alma Welt)

Bons espectros que, sei, velam meus sonhos
E sussurram recados de outras eras,
Às vezes me constrangem, pois tristonhos
Trazem queixas, protestos e quimeras.

A Anita que morreu recém-parida
E Netto, ao que parece, assassinado;
Bento em sua estância, mas falida,
Precisando de ajuda, e humilhado...

Entre os próximos, o Vati que me espera *
A mim, que me criou qual Galatéia, *
Mas fiel ao seu cinzel que ainda impera.

Mas fantasma que vivo me enlouquece,
É Rodo*, que tem, própria, a sua platéia
No verde onde o amor e o grão fenece... *


Notas
*...o Vati que me espera- Vati (papai, em alemáo pronuncia-se Fáti, de Vater, pai ( pr. fáter)
*A mim, que me criou qual Galatéia- referência ao Mito grego de Pigmalião, o escultor que esculpiu no mármore uma estátua tão bela de mulher, que pediu à deusa Venus que lhe desse vida. A estátua criou vida própria, se chamou Galatéia, e logo abandonou o artista apaixonado.

*Mas fiel ao seu cinzel que ainda impera - Alma se considerava uma criação de seu pai que quis moldá-la como uma obra de arte(e conseguiu), depois morreu. Alma no verso quis dizer que permanecia fiel à arte à qual ele a devotou.

*Rodo - o irmão da Alma, jogador profissional de poquer.

*No verde onde o amor e o grão fenece - Alma se refere ao pano verde das mesas de jogo.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O Rei dos Descalabros (de Alma Welt)

Acendam luzes, velas, candelabros,
Quero a casa em festa nesta noite!
Alguns o chamam “rei dos descalabros”,
Mas peço, não me impeçam que me afoite.

Jogou a nossa estância... mas ganhou!
Até este casarão trocou em fichas.
Com sua própria irmã ele dobrou
E uma fortuna fez, de velhas rixas...

Para saudar o aventureiro, acenderei!
Vou esperá-lo na varanda com champanhe,
Não o censurarei... Deus me acompanhe!

Para não ser comedida com o sortudo,
Ao abraçá-lo forte, esquecerei
Ter jogado minha carne, alma, e tudo...

(sem data)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O estaleiro (de Alma Welt)

Na última vez que foste embora
Morreu um pouco mais minha criança
Nos meus braços, retida desde agora
Nesta ativa aduana da Lembrança.

Já não estamos juntos no meu horto...
Devo aceitar que tu és o marinheiro
Que tens uma mulher em cada porto,
E eu cá sou a partida ou estaleiro

Quando voltas um pouco mais distante
E cínico, do mundo mais descrente,
Embora o tenhas todo à tua frente,

Que é o teu quintal de estrepulias,
Mas não mais o de um tempo deslumbrante
Quando tinhas-me na mão e tu sabias...

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A Dama (de Alma Welt)

Quanto temos, Rodo, pra lembrar!
Nossa rica vida em comunhão...
Sim, pois sabes que devemos encarar
Que foste muito mais que meu irmão.

Nossa antiga e poderosa ligação
Que oculta ou secreta não mais era,
E que sempre produziu a reação
Daqueles de quem Ciúmes se apodera...

Mas agora livres tu te apartas,
O mesmo amor do proibido te levou...
Ficamos sós, cada um a deitar cartas:

Tu a blefares e a vencer teus oponentes,
Eu nesta velha varanda dos poentes
A tirar somente a Dama que sobrou...

(sem data)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Horas Roubadas (de Alma Welt)

As horas despendidas te esperando
Amor, agora as sinto tão roubadas...
Pois que em mim pouco pensando,
Jogas teus amores, tuas cartadas.

Sim, Rodo, cavaleiro da fortuna,
Que te olho daqui já tão descrente,
Tu, ao lado d’uma gata, mas gatuna
Que te aliviará do excedente:

Teus lucros, tua beleza e juventude,
O amor que ainda terias se quisesses,
Que tanto apostei enquanto pude,

Quando já não tínhamos feitores,
Tendo partido a dama dos Açores,
E as cartas eram outras, como preces...

(sem data)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Depois da briga (Alma Welt)

Rôdo, estou triste e não me venha...
Deixa eu chorar o quanto possa.
Amanhã se lembrares nossa senha,
Vem, que estarei fora desta fossa.

Mas lembra-te: consolo não me pega
E palavra de carinho vem de dentro
Não pode ser assim lançada ao vento,
Nasce do próprio seio da refrega.

Se agora tens por mim só compaixão
Não baseies nisso o teu beijo
Não faças da piedade uma missão.

Levantar tua luxúria me consola
Afinal não estou lá tanto na sola,
Se ainda despertar o teu desejo...

sábado, 30 de outubro de 2010

Tara (de Alma Welt)

Quando diante estou do meu amor
Tudo em mim desperta e se alteia:
O bom, o belo e, sim, um tanto a dor,
Nunca o mal, a face escura e feia.

E quero somente dar-me e dar-me,
Nada exigindo, e esse é ponto frágil
Dessa fina sintonia leve e ágil
Com seu riso, sua pele e o seu charme.

Mas, bah! Certo de mim, ele não pára
E pode então ser livre e ir pro mundo
Bem longe do que dizem: nossa tara!

E eu sei em minha poesia rebelada:
Voltará, não por remorso bem no fundo:
Ao clamor de nossa carne abandonada...

(sem data)

domingo, 24 de outubro de 2010

A ilha dos sem-muros (de Alma Welt)

Também eu canto de amor, impenitente,
Já que amo e amada sou por meu irmão,
Mas tão logo condenada pela gente
Que segue a norma, a lei e o padrão.

Mas, vede, um grande amor se sobrepõe
Às regras arbitrárias e as afronta
Qual aquele que o grande bardo conta
E no ápice do amor humano põe.

E tentei, bah, como! e ainda tento
Vencer a maré dos descontentes
Às custas do verbo e do talento

Navegando numa nau de versos puros
Em que vamos, ele e eu, pelos poentes,
À Ilha dos que desconhecem muros...

(sem data)

domingo, 10 de outubro de 2010

A volta do guerreiro (de Alma Welt)

Estarei contigo, Rodo, até o fim,
Quando afinal despojado da ilusão
Voltares sem teu Aston Martin,
Tendo perdido tua derradeira mão,

Traído pelas cartas que amavas
Mais do que a irmã que te venera,
Pois mantenho a porta sem as travas:
Não precisas chamar a quem te espera.

E pousando tua cabeça de guerreiro
No regaço da rainha renitente
Não necessitarás de outro parceiro

Por um mês, se tanto, quem me dera!
Quem sou para enfrentar tua quimera?
Já começo a destecer daqui pra frente...

(sem data)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Impotência (de Alma Welt)

O quê fazer? Senão olhar, e suspirar...
Pergunto a mim mesma nestes dias.
"Cuida, o caldo está para entornar!
Pensava que mais sábia tu serias..."

A casa afunda, e com ela meu vinhedo.
Ou é justo o contrário que acontece.
Ele a fazer das cartas seu degredo,
Ela já a destecer enquanto tece...

Está tudo perdido, é o que se diz.
A vida é um naufrágio programado...
Queres viver pra sempre e ser feliz?

Bah! Jardim perdido, ó meu pomar
Onde o mais puro amor foi estuprado!
Ó amor, ó vida minha... ó azar!

(sem data)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

A louca da varanda (de Alma Welt)

Eis a louca da varanda, que me sei,
Que estou aqui há muito meditando
Tentando descobrir onde eu errei
Para estar assim tanto esperando...

Penélope de mim em tempo morno,
Aguardo um sinal vindo do rei
Que me prometeu o seu retorno,
Que mesmo fria e morta esperarei.

Ai!Tempos de ventura, nossa infância,
E depois primeira juventude
Que tentei perpetuar enquanto pude!

Descobri meu destino pelas cartas
No jogo do meu rei, na louca instância
De sofrer-me que voltando logo partas...

(sem data)

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Não foste ao pomar (de Alma Welt)

Não foste ao pomar, o combinado,
Em vez disso aproveitaste pra fugir,
No teu belo Aston Martin turbinado
Que estava preparado pra partir...

Em tua mala, sem a resma de papel,
Levas os teus ternos e o baralho
Com que treinas no quarto de um hotel,
Pois sei que com meu grude te atrapalho...

Embora isso me cause ainda mais sede
Resto a imaginar-te mesmo assim,
Como deitas com as Marias-panoverde,

Em que copas dedilhas essas damas,
Ai! Sinos de cassinos, em que camas,
A baixar seus corações, em vez de mim...

(sem data)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Cartas na varanda (de Alma Welt)

Toda noite esperei nesta varanda
Aquele que o meu coração oprime
Co’a ausência, ah! onde ele anda,
Aquele por quem já não sou sublime

E choro e me comporto como tonta
Ou como a triste dama da janela
Aquela tal que só vê a vida bela
Passar como égua que não monta?

Vê, já não mais sou poeta lírica
E longe vão imagens mais sublimes
Sem esta agora veia mais satírica.

E solitária boto cartas na varanda
Pelo pôquer com que amando te redimes
Enquanto a minha mão ou fé desanda...

(sem data)

terça-feira, 8 de junho de 2010

O cometa (de Alma Welt)

Meu olhar há muito afeito aos longes
Me permitiu viver em outros planos,
E também avessa como os monges
Ao desalento, raiva e desenganos.

Espero, sim, por muito tempo ainda,
O amado, que se a vista não alcança,
O vejo na lembrança que não finda
Como não se acaba a sua andança *

Pelo mundo, em busca de outro sonho
De damas e de amores fictícios *
Dos quais, bem sei, sobrem resquícios

Quando volte a mim como um cometa
Porquanto permanência não prometa
Aos meus abraços e olhar então risonho...

04/06/2005

Notas

* Como não se acaba a sua andança - Alma se refere ao nosso irmão Rodo, profisional do pôquer, desde muito moço, e que quase não pára aqui na estância correndo o mundo no seu carrinho esporte para jogar nos cassinos.

*De damas e de amores fictícios - Alma quer dizer damas do baralho e o naipe de copas (corações)...
(Lucia Welt)

A carta na meia (de Alma Welt)

O amor veio a mim ainda guria...
Não me refiro ao amor que todos têm,
Mas à raiz primal de minha Poesia
Embora fonte de escândalo e desdém.

Por aquele que tanto me completa
Eu teria de pagar um alto preço
Como a Eva após nova dieta
Que lhe custou mudança de endereço.

Estou a brincar com a minha dor...
Agora pago eu minha ousadia:
Adão se tornaria um jogador,

E por ele, de quem sou carta na meia,
Desfio eu, qual Penélope tardia,
Em minha alma mesma a minha teia...

(sem data)

domingo, 6 de junho de 2010

Amor entre os amores (de Alma Welt)

Viver em sintonia de beleza
Foi para mim o naipe da Razão,
Pra não tremer ao dar com a tristeza
Se uma carta destoa em minha mão,

Pois Melancolia é minha amiga,
E me dá cartas melhores e poemas,
Me faz ver a minha alma tão antiga
Neste pampa de peleia e fortes temas,

De outros tempos, de sagas e prodígios
Que a rigor não caberiam na memória
Da guria que sou com a pouca história

De alegrias entre a espera e suas dores
Recorrentes, monocórdicos rodízios,
Para viver o Amor entre os amores...

(sem data)


Nota
* ...monocórdicos rodízios- Notem que com essa expressão Alma parece referir-se à sua obsessão por Rodo com um trocadilho: "rodízios", e a repetida espera por ele em suas temporadas de jogo (de pôquer ). Notem também que a palavra monocórdico quer dizer "uma só corda" (ou tom) mas também pode expressar "um só coração" (de cordis, lat. coração).

* Para viver Amor entre os amores- Alma se refere aos seus reencontros com o grande amor de sua vida, entre as temporadas do naipe de copas, os "amores" de Rodo.
(Lucia Welt)

segunda-feira, 31 de maio de 2010

De corações e espadas (de Alma Welt)

Somente de ilusões amor prospera
E se torna imenso, engalanado
Como um rito de ânsias e de espera
No porto sobre o rio, embandeirado

Para o retorno triunfal do amado
Que entrará na foz de meus delírios
Depois de tantos mares, tantos rios,
Tantos reinos outros do seu fado...

Bah! Mas é apenas minha varanda!
Tenho por certo sonhos de grandeza
Enquanto o coração louco desanda

E voraz envia apelos e torpedos
Para um guri na nave de brinquedos,
De corações e espadas sobre a mesa...

Nota
Sempre a bela Alma a esperar por seu amado irmão Rodo, que anda longe, pelo mundo, nas mesas de pôquer (copas e espadas sobre a mesa). (Lucia Welt)

De puro coração (de Alma Welt)

Como eu rodava em baile de galpão!
Eu e Rodo, jovens, tão felizes,
Às vezes cometendo alguns deslizes
Que não devo na frente de peão:

Um beijo daqueles, de querência
Ou um ardente olhar testemunhado
Por bombachas rivais, ali ao lado,
Que nos estranhavam tanta ardência!

E no final uma peleia deslocada,
Pretexto para compensar o espanto
E o desejo pela prenda inalcançada.

E eu, leve, muito solta e... leviana,
A pensar que a vida era um encanto,
Que puro coração jamais se engana...


08/09/2005

domingo, 23 de maio de 2010

Fim de verão (de Alma Welt)

Como nos amávamos nas noites,
Quando do jogo voltava o meu irmão!
Mas dizia a Matilde: “Não te afoites,
Que não dura nem todo o verão...”

“Logo o verás fazer a mala,
E roncar o motor em sua ânsia
De queimar pneu por essa ala
Que leva à porteira desta estância.”

“E sei que chorarás, tendo abraçado
Suas pernas, qual guria-carrapato,
E, louca, arrancando-lhe o sapato."

“Tanto agarramento até que parta,
Que pra mim já parece desculpado
De querer mais fichas e outra carta...”

(sem data)

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Um Royal Straight Flush da Alma (de Alma Welt)

Que seguro estás, ó meu irmão,
Do jogo de amor que te dedico!
Teu pôquer é teu mundo de ilusão,
Que nela, desde sempre, eu mesma fico.

Parceiros de um jogo diferente
Tu corres o mundo em disparada
Eu, parada, o corro em minha mente
A sonhar contigo outra cartada

Em que nus, despojados, sem cacife,
Não haja blefe mas o coração em fogo
Como aquela vez em Tenerife

Em que dormiste sobre mim como guri
Enquanto no hotel corria o jogo
E um Royal Straight Flush só eu vi...

14/07/2006

quarta-feira, 31 de março de 2010

Convite às vésperas da Páscoa (de Alma Welt)

Vamos juntos à campa do Maestro,
Rodo, meu irmão, hoje não escapas.
Sei que houve diferenças e até tapas
No afeto de vocês, duro e canhestro.

Mas ele te amava como a mim,
E no fundo se orgulhava da magia
Com que levas esse teu jogo sem fim,
Que provaste ter sua própria melodia...

Vê, aqui podes trair-te pelo olhar,
Que o blefe não vigora neste sítio
Onde as aves e os ventos vem pousar.

E se ao me abaixar para pôr flores
Disfarçares na face um brilho vítreo,
Blefarás ante o maior dos jogadores...

(sem data)

domingo, 28 de março de 2010

Quando a primavera retornar (de Alma Welt)

(ou Proezas do Rodo)

Quando a primavera retornar
Quero colher flores nas coxilhas,
Como outrora, Rodo, a conversar
Ou só a admirar as maravilhas,

O que é mais aprazível e eficaz,
Pois que me causou grande aflição
Tua obscura proeza como ás
Do pôquer na última estação,

Quando entre banqueiros te sentaste
Jogando “tua” estância alardeada
E ganhaste um milhão numa cartada.

Não sei se te bato ou se te abraço,
Ao me dares, não de flores, este maço,
Se minha vida em tuas mãos tomaste...

(sem data)

sexta-feira, 26 de março de 2010

Recordações (de Alma Welt)

Me lembro que durante minha infância,
Quando a chuva caía torrencial
Com aqueles raios sobre a estância,
Eu via aquilo como algo pessoal.

Os estalos então eram açoites,
E a trovoada uma grande gritaria
Para me punir dentro das noites,
Que nelas me ocultar não poderia.

Mas, báh! debaixo do lençol
Ou da minha manta pampiana,
Eu estava segura como ao sol,

E mais, porque o Rodo aproveitava
Para entrar também nessa cabana,
E era o sol que comigo se deitava...

28/04/2005

quarta-feira, 3 de março de 2010

Um outro Negrinho ( de Alma Welt)

Havia aqui na estância um negrinho
Que eu cismei de colocar no pastoreio
Pelo capricho de rasgar o pergaminho
E recontar a saga em outro meio.

Mas Rodo, meu irmão, por ironia,
Roubou-nos de noite uma só rês,
Só pra observar o que eu faria
Para dar um novo fecho desta vez.

Mas, ai de mim em minha jactância!
Esta foi a variante não prevista:
O Negrinho sumiu aqui da estância

Deixando meus remorsos neste Pampa,
E ruivos, repintados, como pista,
Os cabelos da Virgem numa estampa...

(sem data)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

SONETOS DO RODO - de ALMA WELT

Planos pro Verão (de Alma Welt)

Vem encontrar-me no jardim, ó meu irmão!
A ti meu plano então revelarei,
Bem... irei contigo (já adiantei),
Estou fazendo as malas pro verão

Em Punta de Leste, pro teu pôquer,
Ostentarei os meus melhores panos,
Serei a sedutora girl de gangster,
Para que confundam seus arcanos.

E se, furiosos, vierem-nos atrás,
Fugindo contigo no Aston Martin
Pelas estradas, de mim te orgulharás.

Bem sei que desde já o Diabo ri,
Menos de ti, ó blefador, do que de mim.
"Ele" há muito é o Curinga por aqui...

(sem data)



Não ao anátema (de Alma Welt)

Me disseram que amar o meu irmão
É uma doença que tenho que tratar.
Mas jamais concordarei com tal visão,
Que um amor não serei eu a extirpar,

Sob pena de lesar-me a existência,
E ficar só e vazia, de repente,
Que sem amor a vida é quase ausência
E o Nada entra, fica, e nos desmente.

Pois lembro que expulsos do Jardim
E arrastados debaixo de um berreiro,
Rejeitei a dor do anátema... em mim:

Não reneguei o amor de meu irmão,
Que, audaz, afrontei o mundo inteiro,
E o canto em prosa e verso desde então.

(sem data)


O Mesmerista (de Alma Welt)

Meu irmão convidou um jogador,
Seu colega aventureiro e “mesmerista”,
Que dizia anular qualquer pudor
Até de antiga freira ou normalista.

E que usara esse poder para vencer
No pôquer, o que quase lhe custara
A vida e mais um olho de sua cara
Retirado a canivete, sem tremer.

Mas a pedido dele em reservado,
Deixei caolho-rei dos fascinantes
Exercer o seu dom em pleno prado...

E voltei com o olhar esgazeado
Com passos abertos, claudicantes,
E o ar pleno e perdido das amantes...

(sem data)


Nota
Acabo de descobrir na Arca da Alma este curioso soneto, nitidamente humorístico, em que Alma conta um episódio real, que em parte testemunhei. Rodo trouxe, para passar uns dias aqui na estância, um "colega" jogador de pôquer profissional, que realmente tinha um olho de vidro e que contou que tinha usado seu dom de hipnotizar em pleno jogo privado com um milionário, e descoberto, passou por maus bocados, quase foi morto e acabou perdendo um olho como lição, retirado a canivete por um capanga do dito ricaço. Insinuante, deu um jeito de ser desafiado no seu dom mesmérico pela Alma, extremamente curiosa que ela era. Mas eu não soube na época desse resultado perturbador, que se deduz deste soneto... Teria a Alma, hipnotizada, sido estuprada em plena coxilha por esse pilantra? (Lucia Welt)




A Ofélia dos pampas (de Alma Welt)
(20)

Contemplativa mais a cada lua,
Tomada por estranha nostalgia
Me ponho na varanda qual coxia
De um palco onde o coração atua.

E me vejo qual Ofélia coroada
De flores, entoando um triste canto
Mais veemente que o perdido pranto
Para morrer de mim tão afogada!

E nem falta o príncipe, qual seja:
Hamlet dos pampas, ah! tão puro,
Que como monja e amante me deseja.

Não direi a tragédia com que arca,
Que sendo irmão caminha sobre o muro
Dos fantasmas desta bela Dinamarca...

28/11/2006

Abro a janela... (de Alma Welt)
(30)

Abro a janela que dá para o jardim
E vejo meus irmãos ali brincando.
Ah! já começaram! E sem mim!
Voltei à infância, já me atrasando...

Esperem-me, Solange, Rôdo, Lúcia!
E vindos da futura geração
O pequeno Hans e seu irmão
Que parecem dois ursinhos de pelúcia.

Estamos todos juntos... como pode?
Ah! Somos crianças novamente!
Pedrinho pede a Pati que o rode

Ao compasso do *scherzo de Beethoven
Que o *Vati punha alto para a gente,
E que os meus ouvidos ainda ouvem...

16/12/2006


Nota da editora;

*... scherzo- (brincadeira, folguedo infantil, em italiano)
Movimento bem ritimado, às vezes acelerado, em geral o segundo movimento de sinfonias.
*... Vati- (pr. Fáti) papai, em alemão.


Viagem ao pomar (de Alma Welt)
(31)

Pelas ondas do meu Pampa ideal
Eu percorro as rotas de minh'alma
E posso iluminar como um fanal
A nave que de mim venho mais calma.

É noite sobre o pampa e a estrela
Que me guia na viagem para o lar,
(que comecei antes mesmo de fazê-la)
Qual o Negrinho ainda vem me "pastorar".

É o meu destino de volta ao coração
Onde está a Poesia e o meu irmão
Rôdo, que no cais ainda espera

Para juntos encontrarmos nossa Era
No pomar da nossa bela macieira,
Onde tudo começou em brincadeira...

16/12/2006


No dia em que a Mutti nos flagrou (de Alma Welt)
(42)

No dia em que a Mutti nos flagrou
A mim e ao irmão em brincadeiras,
Pelos nossos cabelos arrastou
Entre peões e risadas zombeteiras.

Com a mãozinha, obrigada, eu cobria
As “vergonhas” ( o que não me ocorreria)
E fez-nos entrar no casarão
Para mais furibundo e atroz sermão.

Mas eis que o Vati, carinhoso
Disse: —Pára, mulher, assim não vai...
Criança é bichinho só curioso...

-Não a toques, vê, está pelada!
Gritava minha mãe ainda irada...
E ele: “Vem, minha princesa, com teu pai!"

20/12/2006


Eu e os piratas (de Alma Welt)
(43)

Meu irmãozinho construiu embarcação
Toda de caixotes, pouco destra,
Com um cabo de vassoura e armação
Que pretendia ser a vela mestra.

E a arrastamos juntos ao laguinho
Da cascata, pra com ela navegarmos
Como piratas, eu com bigodinho,
Ele com a venda e os sarcasmos.

Mas eis que me vi numa enrascada,
Pois borrando meu bigode com o dedo
Ele disse: “ Descobri o teu segredo!”

“Já que és mulher és cobiçada
E vais ficar pelada e com medo,
Pois serás de toda a marujada!”

20/12/2006



Que falta... o meu Natal! (de Alma Welt)
"Mudou o Natal, ou mudei eu?" (Machado de Assis)


(53)

Eis aí o Natal neste meu Pampa.
E eu não sei se gosto ou se minto...
Faltam tantos queridos, falta tanta
Emoção que agora não mais sinto!

A Mutti, o Vati, até a irmã*
Que me fazia picuinhas de Natal
Só pra não perder a mão do sal
Com que cosinhava a coisa vã.

E Alberto*, o meu fã embriagado
Que não obstante meu cunhado
Me declarava amor e coisa e tal...

Rôdo, onde está?* E a irmã Lúcia,
Pê e Pati e os anjinhos de pelúcia?*
Ah! Como faz falta o meu Natal!

23/12/2006


The Last Christmas (de Alma Welt)
(54)

Rôdo, traidor e ainda amado
Que me ligas aí dessas europas
Pra me dizer que estás atribulado
E não podes enviar as tuas tropas

Para vir salvar meu coração
Assaltado de temores e tristeza
Por um Natal afinal de solidão
Com a falta que me fazes, com certeza.

Eu olho à minha volta e sinto tanto
Que a vida tenha entornado o caldo
Pr'a Solange, o Alberto e o Geraldo

Perdidos sem o pranto que não pude,
Os piás a mudar, perdendo o encanto,
E eu a despedir da juventude...*

23/12/2006

Nota da editora:
* "a despedir da juventude"- Do ponto de vista físico Alma estava no auge de sua beleza e juventude.
Entretando a depressão estava talvez produzindo nela, subjetivamente,
um envelhecimento psíquico que este soneto sugere.



A Revolta dos Amores (de Alma Welt)
(62)

Meus amores revoltados se congregam
No tempo de minh' alma e coração,
Ai! Como saber se um dia sairão
Das dores e cobranças que os cegam?

Rôdo, a quem não mais ofereci
O meu corpo, e depois a prima Helga,
Aquela que eu rimava com acelga,
E gostava de brincarmos de xixi...

E depois Aline, amor paulista,
Que era só pra ser modelo meu
E logo nos meus braços se perdeu.

Ah! Andrea, que ao amor correspondia
Desta Alma louca e nunca vista
E que por pensar-me morta, mais sofria...

27/12/2006

A vida secreta dos pavões (de Alma Welt)
(63)


Quando guria sonhava ser estrela
Mas de balé ou então do Alla Scala:
De ópera, como a Callas, que ao vê-la
Um dia achei que iria superá-la.

Meu Rôdo até hoje me incentiva
E acha que o Vati fez milagres,
Acredita que a irmã é uma diva,
Sua poesia faz escola como Sagres.

Sim, poetas navegam universos
Belos, multiformes, com seus versos,
Mas se trata do mundo impraticável,

Cuja beleza seduz por gerações
Mas que acaba sendo imponderável
Como a vida secreta dos pavões...

28/12/2006


Quando avisto ao longe... (de Alma Welt)
(65)

Quando avisto ao longe o casarão
Da minha infância e agora da poeta
Que o canta e molda em emoção
Como reminiscência predileta,

Eu vejo que eterno ficará
Em sua saga própria, suas lendas,
Conquanto a decadência chegará
(as paredes já ostentam suas fendas)

Pois tudo permanece na memória
Que co'a mente do leitor forma um todo,
Como as ruínas das Missões e sua glória...

Aqui a Alma amou e foi amada,
Aqui foi feliz c'o Vati e o Rôdo
E com a prole inocente e encantada!

30/12/2006


Vai-te, ano... (de Alma Welt)
(69)

Esta noite cantarei os meus amores
Despedindo triunfante o ano findo,
Com todas as delícias e os horrores
Daquilo que foi feio, e o que foi lindo.

Andrea, me perdeste, te perdi.
Mayra, aluninha arrebatada
Por tua mãe, em cantata inacabada;
Mano Rôdo, viajaste, meu guri!

Kibsel que afrontaste tua morte
Por amor que no entanto não fui eu;
Aline que escolheste tua sorte

E fugiste com teu Marco* que era meu
Fruto de teu amor com meu irmão...
Vai-te, pois, ó ano, ó confusão!

31/12/2006

Notas da editora:

No seu romance "O Sangue da terra", terceiro tomo da trilogia A Herança, Alma conta que Aline desejando ter um filho que pudesse criar junto com Alma, entregou-se com a conivência desta ao Rôdo, nosso irmão, para conceber, sem compromisso deste. O menino que nasceu foi chamado Marco, e Aline, cuja mente mudou após a maternidade, acabou abandonando Alma e voltando para São Paulo carregando seu filho.


A Harpia revisitada ( de Alma Welt)

(86)

Meu irmão quer dar-me uma Harpia,*
Quer dizer, um presente de rainha:
A águia das florestas e da Arcádia
Outrora monstruosa e mesquinha.

E tudo porque soube da aventura
Que tive com o tal colecionista,
Quando fui, digamos, finalista
Para desenhar a criatura.

Sim, aquele Antônio fazendeiro
Que acabou revelando o seu desejo
Para além do seu intento pioneiro.

Narrei tudo no meu conto celebrado
E agora, de repente, assim, revejo
O medo do *ménage inusitado.

04/01/2007

Nota da editora:

Creio que este soneto puramente evocativo, seja de difícil compreensão para
quem não leu o conto "A Harpia", do seu livro de contos
publicados pela Editora Palavras & Gestos(de São Paulo)
"Contos da Alma", de Alma Welt, que se encontra em algumas livrarias da capital paulista e pode ser adquirido pela Internet (vide "Alma Welt" no google). Lá embaixo, neste blog, antes do primeiro soneto da série publiquei a capa do mencionado livro.
Algumas pessoas(eu inclusive) consideram o conto A Harpia
uma obra-prima da Alma.

*" ménage inusitado"- no conto cheio de suspense A Harpia, Alma se vê envolvida numa espécie de "ménage-a-quatre", isto é um quatrilho composto por
ela, Antônio(o colecionador de aves raras), sua mulher Chiara, e a própria Harpia, a fantástica águia das florestas brasileiras, que era a estrela da coleção
do fazendeiro paulista que contratou e hospedou Alma em sua fazenda, como artista plástica para retratá-la num desenho.


Lembranças do corpo, dores da alma (de Alma Welt)
(87)

Faz tempo que não me banho nua
No poço da cascata ou na piscina
E sinto que se o tempo não atua,
Um crescente pudor meu corpo mina.

Onde está a inocência de outrora,
Peladinhos eu e Rôdo na campina?
A verdade é que a confiança mora
Onde a dor e o real não contamina.

Ainda lembro como fui tão humilhada,
Colocada aberta após a luta
Para ser degustada como fruta

Ali, no bosque, não longe destas águas
(e a alma ainda insiste nessas mágoas)
Exaurida, aurida e... violada!

04/01/2007

Nota da editora;

Descobrindo este soneto, fiquei perplexa e abalada.
No soneto Alma pretende revelar que já teria sido
violada antes, às margens da cascata onde seria morta
duas semanas mais tarde?
Ou teria sido mais uma antevisão, premonição ou vidência,
contada poeticamente de uma perspectiva póstuma?


O passatempo das horas (de Alma Welt)
(97)

Para escapar às tentações do tédio
Não aceito nenhum jogo de baralho,
Nenhum de tabuleiro ou o borralho
Dos sentimentos e do raciocínio médio.

Em matéria de cartas só respeito
As da cigana com seu pacto astral
Ou aquelas que exigem muito peito
Como as do Rôdo em seu pôquer marginal.

Mas servil, vejo o passar das horas
Como um mordomo que exige as atenções
A elas porque são grandes senhoras

Que preferem o soprano da poesia
Que lhes é apresentada nos salões
Onde o próprio Tempo se enfastia.

05/01/2007


O pedido da Alma (de Alma Welt)
(103)

Quando eu morrer me enterrem no meu prado
(quanto gaúcho já fez este pedido!)
Mas não quero pranto, prece nem gemido,
Quero mais é um fandango entusiasmado

Com chinocas, prendas e peões
Gaudérios, "gauchos" fanfarrões
Taconeando com as esporas pela lança
Numa pelea enérgica de dança!

E quero isso ao lado da minha cova,
Ou se possível mesmo em cima dela,
Que de amor só quero palmas como prova.

Uma lágrima porém permitirei,
Aquela do herdeiro do meu rei:
Meu irmão, de noite, o choro e a vela...

11/01/2007



Da gloriosa infância da Alma (de Alma Welt)
(107)

Aos nove eu já fugia do meu leito
Pra subir até o Rôdo na mansarda,
Pra com ele comer algum confeito
E sonhar com "feitos de vanguarda".

E depois de uma "noite de prazer"
(às vezes eu dormia em seu colchão)
Nós descíamos ao amanhecer
Para o desjejum com chimarrão.

E logo zás! pra fora em correria
Para escapar da dura inquisição
Da Mutti, que apartar-nos gostaria...

Então, brisas no rosto, ó meu "sertão"!
Ó pampa!... de mãos dadas e ao léu,
Nossa infância gloriosa sob o céu!

10/07/2007


Recordações da guria do pampa (de Alma Welt)

(112)
Quando guria subi no umbu pampeiro
Para ver o mundo lá de cima
Mas logo deparei c'um formigueiro
E perdi por um minuto a auto-estima.

Gritei: "Rôdo, Galdério, me acudam!
Não sei mais descer, estou com medo,
Aqui tem formigas e elas grudam,
E já uma delas me picou o dedo!"

Rôdo, rindo até rolando, retorquiu:
"Bah! Quem te queria ver pelada hoje viu,
Já que estás por baixo sem calcinha,"

"E agora que estás nessa forquilha,
Cuida que não entre formiguinha
Nessa tua rachinha-maravilha!"

12/01/2007



A Salamandra (de Alma Welt)

(113)

Me lembro de um inverno de lareira
(embora estejamos no verão),
Preparando do mate a saideira
Quando algo fez notar-se ao meu irmão:

"Olha, Alma, nas chamas, olha ali!"
Eu olhei e por instantes nada vi,
Até que por sua insistência,
Finalmente vi Sua Excelência

A Salamandra, um lagarto transparente
Que brincava no fogo ali em frente
Como um ser de vidro, embora vivo.

E eu, comovida, percebia
Que a nota mesma, e o motivo,
Era a dádiva, a mim, da alegria...

12/01/2007


A Salamandra retornada (de Alma Welt)
(122)

E a Salamandra apareceu de madrugada
Nas chamas da fogueira na campina!
Estava eu com meu Rôdo acordada,
Co'a chaleira em chiadeira muito fina,

Envoltos nos palas, sob estrelas
Que velavam o serão do meu destino,
E que se aproximaram para vê-las,
Às chamas, e ao show reptilíneo

De seu elemental perante um par
Que assim indagava seu caminho
Qual se fora plausível e comezinho.

Então, acreditem, ela mostrou,
Aquilo que não posso revelar,
E a Alma em solidão sempre sonhou...

15/01/2007

Nota da editora:

*Salamandra- Alma tinha uma ligação muito forte com esse elemental do fogo, e em vários momentos de sua obra se refere à sua aparição nas chamas, presenciada por ela e Rôdo. Estou convencida de que ela realmente via a Salamandra, como um lagartinho vítreo e transparente brincando nas labaredas, e que trazia uma mensagem oculta de seu destino.


O volátil real (de Alma Welt)
(141)

Estou correndo o risco de viver
A vida de soneto em soneto
Pois somente neles posso ver
A mim e meus fantasmas, como um gueto.

Tenho em volta a mim tanta beleza,
Este pampa, a pradaria, os animais,
E já não consigo ter certeza
Se são apenas versos ou reais.

Está faltando o senso do palpável,
Ou da tênue fronteira do real,
E temo já nem parecer saudável

Pois sinto que me olham já de esguelha,
E faço com o Rôdo uma parelha
De irmãos siameses do Nepal...*

19/01/2007


Nota da editora:

"irmãos siameses do Nepal"- Com esse estranho verso, não sem um certo humor Alma sugere o absurdo ou a estranheza de sua simbiose anímica com nosso irmão Rôdo, inseparáveis que eram desde a infância, apezar de Rôdo viajar bastante pelo mundo, como jogador quase profissional de pôquer.



Muito voei (de Alma Welt)
(159)

Muito voei até extremos planos
Onde o Chuí desliza até o mar
E começam os pagos castelhanos
Em que quisera um dia me exilar

Quando de mim levaram meu irmão
Para longe da irmã e desta estância,
E quando truncaram minha infância
Por acharem que cabia punição

Àquele amor feliz e apaixonado
De duas crianças que se acharam
No mundo como um só ser apartado.

E agora faltava o outro lado,
Sempre, que no meio me racharam,
A procurar dentro de mim o ser amado...

13/01/2007



Jogos do Fogo (de Alma Welt)

(171)

Noites do meu Pampa, inesquecíveis,
Em bivaque sob estrelas, mateando,
Meu irmão e eu dolentes e sonhando
Conosco como sendo imperecíveis

No sonho de sonhar o impossível
Que era para nós permanecermos
Para sempre no minuto intangível
De ali estar e ao outro pertencermos.

Ah! E que nada jamais superaria
A doce sensação de sermos fogos
Embora o fogo nos quisesse outra via

E para isso logo nos apartaria
Levando-nos, os dois pra outros jogos,
Nas sortes, nos azares, na Poesia...

03/01/2007



Palavras ao Rôdo (de Alma Welt)

(173)

Rôdo, meu irmão, hoje não jogues,
Algo me constrange o coração,
Só peço que fiques, dialogues
E esqueças esta noite e sua mão.

Sonhei com um Royal Straight Flush
Sobre negra mesa de baralho
E depois um vermelho como um flash
Sobre as cartas, a mesa e o assoalho.

Então, irmãozinho, não me negues
Só um dia do teu jogo vou pedir,
E o de hoje peço que me entregues.

Depois quando o sol se levantar
E todo o nosso Pampa despertar,
Podes, de mim, no teu leito despedir...

12/01/2007

Nota da editora:


Me lembro bem desse dia. Nosso irmão Rôdo, jogador semi-profissional de pôquer, que saía quase todas as noites para jogar nas cidades vizinhas, assim como já o fez por meio mundo afora, aquela noite atendeu o pedido da Alma, pois aprendera a confiar nos pressentimentos dela desde a infância. Alma ia além disso e tinha um notável dom de vidência. Tenho certeza que o sonho da Alma e seu pedido salvaram naquela noite a vida do nosso irmão, cuja imensa sorte e habilidade no jogo despertavam freqüentemente invejas e ódios em alguns parceiros. É curioso também, neste soneto certa ambigüidade, pois o último verso dá a entender que como compensação ela dormiria com ele aquela noite, ou mesmo que todo o suposto sonho tenha sido um pretexto para isso. (Lucia Welt


Jogos do Amor (de Alma Welt)
(186)

Meu irmão aprendeu a fazer mágica
Com as cartas, já que é um jogador
E mostrou-me um truque encantador
Não fora a conseqüência quase trágica

Pois fazia aparecer um ás no pôquer
Numa certa seqüência de cartada.
Mas não resistiu, numa noitada,
A fazê-lo em pleno jogo, pra valer.

Nessa noite ele voltou muito ferido
E o tratei condoída e consternada,
Que nunca o vira assim desprotegido,

Pois que, pra quem está acostumada
A vê-lo e tratá-lo como herói,
Descobri-lo vulnerável... ah! como dói!

07/01/2007


De lobos e guris (de Alma Welt)
(196)

Minha mãe dizia haver um lobo
No bosque aqui perto e emboscado
E que eu deveria ter cuidado
E nem sequer ir ali com o meu Rôdo,

Pois meu irmão, guri bem destemido,
Não seria páreo pro vilão
E que depois de assado e comido
Eu seria a sobremesa alí à mão.

Mas a curiosidade era mais forte
E eu entrava com ele ou sozinha
Embora jogássemos com a sorte

Pois a verdade era que eu creía
Haver o lobo que comia criancinha,
E até hoje ainda creio: o lobo havia.

13/01/2007


De pôquer e Da Vinci (de Alma Welt)
(208)

Rôdo, irmãozinho, estás de volta
E jogas cartas e dinheiro sobre a mesa.
Talvez penses aplacar minha revolta
Com os signos da tua realeza.

Eu sei que pouco perdes e mais ganhas
E que o pôquer é "cosa mentale",*
Que como a arte do Da Vinci isso vale,
Já conheço teus recursos e barganhas.

Mas, irmão, não vês que ficas longe
Por tempo demais para esta Alma
Que está longe de ser como o tal monje*

Que enviou o companheiro ao monastério
Em missão, e esperou com tanta calma
Que o reencontro foi no cemitério?

03/01/2007

Nota da editora:

"cosa mentale"- Leonardo Da Vinci escreveu num códice seu que "pittura è cosa mentale", enunciando de maneira pioneira o conceito de pintura como expressão intelectual e mesmo "conceitual", o que seria grato à crítica do século XX, ou seja da "arte moderna". No soneto da Alma ela parece se referir a uma conversa que teve com Rôdo, em que ele teria defendido sua obsessão pelo pôquer como por uma arte intelectual e profunda.

".. o tal monje"- Não foi possível identificar ou reconstituir essa estória, talvez um "koan" zen, a que Alma estaria se referindo nestes versos. Desconfio que Alma inventou esta estorieta, como ela fazia muitas vêzes, para justificar idéias suas num verso, tal como já o fazia Jorge Luis Borges, o que aliás é prerrogativa dos grandes poetas: criar suas próprias lendas e mitos e citá-los como se já fossem do conhecimento universal, o que é no mínimo muito divertido. (Lucia Welt)


Gnose (de Alma Welt)
(213)

Quando a Açoriana faleceu,
Ela que era a mãe, a minha Mutti,
Eu pensei, depois do tanto que doeu:
"Talvez a vida agora eu desfrute."

Pois mais doía ainda a incompreensão
E ardiam nas costas as varadas
De marmelo, pela minha incontenção
E mesmo minhas cândidas noitadas

No leito do irmão, nós dois colados,
Como um ser que fosse uno, uma gnose
Pela qual nos fariam execrados

Pois teimavam em apartar desta guria
O ser com quem vivia em simbiose
E a quem devo toda a minha poesia...

08/09/2006

Nota da editora:

O amor, a paixão mesmo que unia Alma e Rôdo desde guris
foi motivo de escândalo e chegou a repercutir na região.
Mas pela intensidade e grandeza desse amor, produziu-se uma visível trancendência que alcançou, após a morte da Mutti, uma tolerância, senão uma conivência por parte de todos, até dos peões da estância (por incrível que pareça) e que acabou se tornando parte do mito da Alma, mesmo entre nós seus familiares, com exceção da Matilde, nossa querida babá, cuja rabujice católica nunca foi levada muito a sério por nós, pois sabemos quanto nos ama. Entretanto preciso dizer que meu ex-marido Geraldo ousou desrespeitar a Alma por isso, e por sua cobiça por sua beleza, coisa que testemunhei e que Alma descreveu no seu romance inédito A Herança. Surprendi-me com este soneto, encontrado no recém-descoberto "caderno secreto" da Alma pois nele ela revela o seu ressentimento pela "incompreensão" (afinal compreensível) da nossa mãe, diante do incesto de seu filhos. Mas notem que nele a palavra "gnose" é a chave para o entendimento da postura espiritual e física da Alma na sua relação com Rôdo. (Lúcia Welt)


O segredo da Cascata (de Alma Welt)
(215)

Cavalgando uma manhã na pradaria
Encontrei uma carroça de ciganos
Que erravam há dias pelos planos
Atrás de uma cascata que havia

Para acamparem no entorno...
Porquanto me pareça um povo artista
Algo me dizia ser transtorno
E pensei em fornecer-lhes falsa pista,

Pois meu irmão fizera-me jurar
Que o nosso paraíso da infância
Não iríamos com outros partilhar.

Mas, então, com a rédea fiz um ésse
Em silêncio retornando à estância
A esperar que o segredo se impusesse.


14/12/2006

Nota da editora:

Alma e Rôdo costumavam banhar-se nus desde guris no poço da cascata que fica em local quase desconhecido de uma mata virgem próxima do casarão.Entretanto seria impossível mantê-la secreta como eles pareciam acreditar. A verdade, lamentavelmente, é que o hábito da Alma de banhar-se nua, ali, no esplendor de sua beleza, acabou lhe custando a vida. O peão (de uma estância vizinha) que a matou já a observara antes ou ouvira falar da beldade nua daquele poço (isto está sendo investigado). (Lucia Welt)


De pôquer e carência (de Alma Welt)
(223)

Caminhar no casarão a passos lentos
Tornou-se hábito embora eu seja jovem,
E posso até ouvir meus pensamentos
E sonetos, que nonatos, me comovem.

Subo de repente ao nosso sótão
Onde já nasceu mais de um poema,
Ali deitando-me no catre do irmão,
E em que tantas vêzes fui meu tema.

E então, recordações sensoriais
Me fazem chorar e adormecer
Agarrada aos travesseiros e meus ais

Para sonhar que estou no abraço forte
Do guri que me deixa sem saber
Que seu pôquer há de ser a minha morte...

17/01/2007

Amar, amores (de Alma Welt)
229

Quando meu amor comigo andava
Nas manhãs de primavera, ao meu lado,
Eu sentia que o Tempo então parava
E o Infinito se instalava no meu prado.

Esse amor que os destinos alterava,
Ora era Rodo, meu irmão, depois Aline,
Laís, depois Mayra, a sublime,
E Andrea que digitalmente amava...

E por razões ocultas, pouco nexas
(ou isso era desmando muito louco
de um piá com as suas doidas flexas),

Eu amava o amor que me mirava
E cujo foco podia durar pouco
Pois o belo sua face transmutava.


06/01/2007

Chuva e sol, ou La niña (de Alma Welt)

239

Rôdo, mano, vai na frente espionar
Pra ver se posso entrar pela cosinha!
Matilde já não quer acobertar
As loucas escapadas de "la niña".

Já que estou molhada e seminua,
Minha Bá achará que estou sem roupa
E a Mutti se me pega perpetua
O mito de que Alma é mesmo louca.

Com a chegada do nosso haragano,
Bah! rolar na chuva nestes prados
Com o sol em contraponto pampiano

E ter estado nos teus braços, meu irmão,
Gritando de alegria, ensopados,
Vale na certa os tapas e o sermão!

04/11/2005


Nota da editora

Ao encontrar este soneto mais uma vez me comovi, pois ele recorda um fato que testemunhei. Lembro-me bem desse dia, quando Alma ainda adolescente (15 anos) chegou ensopada, com o vestido colado no corpo (que realmente a deixava nua), linda e afogueada, entrou em casa se esgueirando e ao mesmo tempo sorridente, travêssa. Nossa Mutti era viva quando do fato portanto Alma escreveu este soneto muitos anos depois do ocorrido. O vitalismo, alegria e integração de minha irmã com a Natureza eram comoventes, e ao recordá-lo não posso acreditar que ela se foi... (Lucia Welt)



De lobos e guris (de Alma Welt)

(196)

Minha mãe dizia haver um lobo
No bosque aqui perto e emboscado
E que eu deveria ter cuidado
E nem sequer ir ali com o meu Rôdo,

Pois meu irmão, guri bem destemido,
Não seria páreo pro vilão
E que depois de assado e comido
Eu seria a sobremesa alí à mão.

Mas a curiosidade era mais forte
E eu entrava com ele ou sozinha
Embora jogássemos com a sorte

Pois a verdade era que eu creía
Haver o lobo que comia criancinha,
E até hoje ainda creio: o lobo havia.

13/01/2007


O punhal nas águas (de Alma Welt)
244

Com meu Rôdo como sempre mergulhei
No poço da cascata esta tarde
E nas águas transparentes encontrei
Um punhal de prata de "compadre",

E o mano diz ser lance muito antigo
Que fazia um "gaucho de honor"
Que tivesse sido salvo por amigo
Cuja arma tivera mais valor.

E lembrei-me então da narrativa
De um velho boiadeiro meu vizinho
De como o pai deixara a vida ativa

Por ter ficado eterno devedor
De um que de seu filho era padrinho,
E salvara de si mesmo em dor de amor.

(sem data)
____________________________

Nota da editora

Este soneto Pampiano me pareceu de sentido não muito claro. Alma por sua paixão pelo Pampa, conhecia bem os costumes gaúchos, mas por vezes narra coisas obscuras, costumes e tradições que não encontrei meios de conferir. É verdade, porém que não tenho a entrada e o trânsito que ela tinha nos ambientes e na intimidade dos peões. Entretanto encontrei dentro de sua arca um punhal de prata antigo, magnífico, todo lavrado, que pode ser esse do soneto, encontrado no fundo do laguinho da cascata. (Lucia Welt)



À deriva (de Alma Welt)
247

Altas horas, silêncios rumorosos
De grilos, de sapos e os estalos
Do casarão com seus nichos tenebrosos
Por onde o Tempo escorre pelos ralos.

A casa arfa, suspira, sofre e geme
Com o peso de sua circunstância.
Como um barco náufrago, sem leme,
Que já não disfarça a sua ânsia,

A ausência de piloto é um mistério...
A poetisa, o jogador e a cosinheira
E um contra-mestre com nome de gaudério

Somos pois os tripulantes que vagamos
Dentro de uma nave sem esteira,
E não sabemos mais pra onde vamos.

15/01/2007


De pôquer, amor e cinismo (de Alma Welt)
248

Bom jogador mas cínico fantástico,
Meu irmão ganhou uma bolada,
Chegou jogando a pilha com elástico,
Dizendo: "É todo teu, não quero nada!"

"Só retirei um pouco para o jogo
Pois o pôquer bom é o seguinte,
A nova mão, o blefe e o logro,
Pois jogar é um roubo com requinte."

"Todavia se fizeres bom proveito
E levares este barco para adiante
Mesmo com a Poesia tua amante,"

"Eu me sentirei mais liberado
Pra ganhar ou perder com teu respeito
Pois a Alma sorri e sou amado..."



A blefadora (de Alma Welt)
251

Irmão, dá-me a mão, ó meu amigo
Entre este verde e o azul celeste!
Amanhã não estarás comigo
Mas sim na venal Punta de Leste.

À mesa, com as cartas, nem te lembras
Da dama com quem corres estes prados,
E só verás rainhas de outras lendas,
Valetes, reis e coringas abobados.

Embora saibas sempre que te quero
E a mão que tenha seja ruim,
Blefo ao fingir que não te espero.

Bah! Como sou boa jogadora!
Minhas cartas a esconder de mim
Numa aberta caixa de Pandora...

16/01/2007



Sonhos (de Alma Welt)
265

Meu corpo traz em sua memória
O toque e as carícias dos amados,
Homens e mulheres, e a história
Dos murmúrios e silêncios encontrados.

E assim, abandono-me no sonho
Carregada de vívidas lembranças
Como arquivo vivo que disponho
Para os dias de menos esperanças.

Eis porque acordo perturbada,
Menos por carência e mais paixão,
Por vezes uma ânsia exasperada,

E erguendo-me da noite na calada
Vou ao seu leito, em sonho da razão,*
Insinuar-me nua, assim, colada...


(sem data)

*Nota
O fato de Alma ter colocado como epígrafe a famosa frase encontrada numa gravura de Goya da série Caprichos denota a consciência plena de sua relação proibida, já bem conhecida de seus leitores. Todavia sempre achei que a beleza lírica que ela punha na abordagem dessa relação, a fazia transcendente, a justificava e absolvia. (Lucia Welt)


Aqui estarei... (de Alma Welt)
269

Aqui estarei, meu Rôdo, quando tudo
Naufragar em nós com o navio
Que é este casarão já quedo e mudo
A crepitar como uma vela sem pavio,

E nós, como sombras sorrateiras
Esgueirarmo-nos por estes corredores
Ou por este salão e suas soleiras
Que olharão para os últimos albores

Já a nos ver espectrais em cavalgadas
Ou mesmo a pé a vagar nas pradarias
Nas novas noites, eternas e tão frias...

Ai! Não mais claras manhãs, e orvalhadas,
Onde rindo perdoavas meus deslizes
E eu aos teus, por sermos tão felizes!

14/01/2007

Nota
(Encontrei agora mais este soneto que me fez chorar. Alma previa sua morte iminente e expressava seu amor desmedido por isto tudo, sua vontade de permanecer para sempre por aqui, mesmo vagando, sem manhãs orvalhadas. Mas... ela se via a vagar eternamente com Rôdo, o irmão amado.(Lucia Welt)


Meu overmundo (de Alma Welt)
271

Tive um sonho esta noite, recorrente,
Pois me pareceu bem familiar:
Eu morria jovem, de repente,
E não podia decidir quando voltar.

Antes me era dado ver o mundo,
Mas sem escolher hora e lugar
E teria assim meu overmundo
Pois que Deus me queria premiar.

Mas, bah! eu chorava de saudade
Do meu pampa, estância e casarão,
Minha querência, Rôdo, nossa herdade!

E tanto solucei, e o pé batia,
Que Deus não suportando a confusão
De cabeça me atirou na pradaria!...
14/11/2006

Nota
Surpreendentemente, encontrei hoje de manhã este soneto inédito da Alma, em sua arca, que evidencia que ela conhecia o poema de Murilo Mendes, e que este a inspirou de maneira singular. Mas pode-se perceber também a semelhança da cena por ela descrita com um outro texto, um belíssimo monólogo de Cathy Earnshaw (ou Cathy Lindon), do romance O Morro dos Ventos Uivantes( Wuthering Heights) de Emily Brönte, que Alma amava sobretudo, por sua imensa identificação com a personagem da charneca inglesa vitoriana). (Lucia Welt)



Palavras ao Vati (de Alma Welt)
275

Dá-me teu colo, Vati, estou carente,
A Açoriana acaba de afastar-me.
Eu sei, ela me acha delinqüente,
Somente tu, ó Vati, sabe amar-me.

Ela diz que me espevito ao ver "um macho",
Tu ou Rôdo, dia e noite, e sem que
Jamais, ela diz, "sossegue o facho"
Mesmo servida a minha quota de rebenque.

Mas, pai, foste tu que me criaste
E me disseste pra ser sempre verdadeira,
Que minha pele já propunha esse contraste

Com, do falso a escura face, escondida,
E que jamais porias na coleira
O ser que iluminou a tua vida!



O eterno retorno (de Alma Welt)
286

Contarei e cantarei até o fim
Dos meus dias como vou ao meu irmão
Encontrá-lo alta noite no seu sótão
Para entregar-me a ele e ele a mim.

E como, tateando no escuro
Nos longos corredores, já ardente,
Eu me dispo no caminho, de repente
Naquele impulso claro e escuro

Que me leva assim a dar-me e dar-me
E exausta adormecer sobre seu ombro
Depois de tanto cavalgar a sua carne.

E como, adormecida, recomponho
A clara roda de ir ao seu encontro
Na obscura clareza do meu sonho.

(sem data)


O jardim das memórias (de Alma Welt)
292

Minhas crianças amadas me rodeiam
E me fazem saber que sou feliz,
A mim, que não sou simples aprendiz
Pois beleza e alegria me permeiam

Desde guria, aqui, por estes pagos
Em torno ao casarão na pradaria:
De mãos dadas com Rôdo eu corria,
E os dedos já sentiam seus afagos

Que depois, no bosque, ou na cascata
Se estenderiam aos meus pequenos seios
Incipientes e brancos como nata.

Então eu me enterneço duplamente
Ao brincar neste jardim com seus enleios
Que me levam a mim mesma novamente.



24/11/2006


Das noites no jardim (de Alma Welt)
294

Guria apenas, do quarto meu, fugia
Pela janela, de noite, já contei,
Para ir ao jardim que tanto amei
Para ver dos pirilampos a folia.

E rodava sob o meu lustre da lua
A branca camisola qual princesa
Que valsasse num palácio de grandeza
Com a minha sombra logo nua.

E então me deitava, esfusiante,
No tecido, assim, pra não coçar
E me punha branca a me lunar

Sentindo que meu corpo coruscante
Estava ali, aberto, sob o olhar
De meu irmão, no sótão, vigilante.

(sin data)


A fada da minha mente (de Alma Welt)
296

Esta noite irei ao meu pomar,
Apesar de escura e enevoada.
Ali estarei com minha fada
Com quem combinei de me encontrar.

Rôdo, mas só ele, está ciente,
Pois os outros não podem suspeitar.
Estou em perigo, ultimamente,
Há quem queira mesmo me internar.*

Na minha "Grande Noite de Walpurgis",*
Quando terminei por levitar,
Todos os deuses vieram me encontrar...

Mas o espanto agora é diferente:
"Ó minha fada, eu sinto quando surges
A partir da minha própria mente!"

18/12/2005

Nota

*"Grande Noite de Walpurgis" - Alusão à "Noite Clássica de Walpurgis", cena apoteótica, magistral e iniciática do Fausto, de Goethe. Trata-se de uma grande reunião ou Orgia dionísiaca, de todos os deuses da Grecia Antiga, a que Fausto assiste com a ajuda de Mefistófeles. A cena é longuíssima, extremamente erudita e cheia de ocultismo. Há mesmo estudiosos que se debruçaram anos a fio sobre o estudo dessa parte do Fausto, inclusive teses de doutorado.
Alma assim se refere à sua experiência mística pagã, de invocação mágica dos deuses e numes do Pampa, diante de sua macieira sagrada do pomar, que está descrita magistralmente em certo capítulo do seu romance A Herança, e sucintamente no seu soneto "Todos os deuses", postado nos blogs Vida e Obra de Alma Welt, e nos Sonetos de Mistérios da Alma. (Lucia Welt)

* ... me internar"- Alma temia ser internada como afinal realmente o foi, numa Clínica pouco depois da data deste soneto. Mas não é verdade que queríamos interná-la. Fomos pegos de surpresa, quando ela sumiu num sábado e foi encontrada por nós que a procurávamos preocupadíssimos, em lamentável estado vagando no bosque, fora de si, com o vestido rasgado e arranhões nos seios e nas coxas, que suspeitamos como vestígios de estupro.(Lucia Welt)



Sonidos de la noche (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)


Las paredes viejas de esta casa
Me traen los sonidos de otra era
Cual ala negra o un tonel que vaza,
Llenos del dolor que reverbera.

Distingo en la noche los gemidos
De las hijas del pobre Valentim,
La grita de su viuda, los ladridos
Y el aullido triste del fiel mastín

Allá, al pie del cuerpo que pendía
De la viga en el sótano sufrido
Donde el bello Rodo dormiría,

Hermano inocente y confundido,
Su sueño a acunar la algarabía
De otro corazón tan prohibido.

______________________________

Nota
Mais un soneto em que Alma insere menção à sua relação com nosso irmão Rodo. Entretanto pareceu-me detectar aqui, pela primeira vez, uma nota de consciência (não de culpa) da proibição dessa relação.(Lucia Welt)


O prelúdio sem fim (de Alma Welt)
311

Uma vez, voltando do meu prado
E já atravessando o nosso mate,
Ouvi um prelúdio executado
Por alguém que só podia ser o Vati.

Corri pelo jardim, logo o salão,
E chegando ao escritório para vê-lo
Surpreendi-me ao encontrar o irmão
Como de praxe a coçar o cotovelo.

Onde? Onde está nosso maestro?
Eu indaguei, espantada e meio tonta.
Quero ouvi-lo, me parece falta um resto!

"Minha irmã"- disse ele sério para mim-
"É um prelúdio para ti, não faça conta,
Que jamais irei tocá-lo até o fim..."

(sem data)


Acabo de encontrar este soneto na arca da Alma, que me dei conta de ser inédito, nunca publicado por ela ou por mim. Fui testemunha desse episódio. Rodo tocava piano maravilhosamente e compunha, raramente. Alma achava que ele desperdiçava seu talento, dedicando-se cada vez mais ao pôquer. Mas me parece que, ele ter composto um prelúdio inacabado para a sua Alma, contém uma vaga alegoria... (Lucia Welt)



Camerata pampiana (de Alma Welt)
315

Corramos, meu irmão, depressa, vamos!
Pois temos muito chão nesta campina,
Se pro almoço atrasados, só, chegamos,
Haverá solo de relho e em surdina.

A Açoriana, maestrina, nos espera
Com a batuta na mão, e de marmelo.
Nos “fortíssimos” é onde ela se esmera,
Dos quais tenho um medo que me pelo.

Mas, bah! meu Rodo, valeu tanto
Ter estado contigo em camerata,
Nossos arpejos, sem pejos, na cascata...

Ai! Minha pele canta como os lábios
Lembrando teus abraços e o encanto
Dos teus “pianíssimos” tão sábios!

03/09/2006

Notas

Acabo de encontrar este soneto encantador na arca de inéditos da Alma. Suspeito que muitos sonetos ainda encontrarei tão primorosos como este, que nunca foram publicados pela Alma em nenhum site. Já são bem mais de 1.000 os sonetos dela compilados por mim até o momento. (Lucia Welt)

*Açoriana- como muitos já sabem, é como somente a Alma chamava nossa mãe, Ana Morgado, chamada "Mutti" por nós. Nossa mãe era muito católica e severa, ao contrário de nosso pai, o Vati, que criou a Alma como "uma pequena pagã". Havia muita dificuldade de relacionamento entre elas desde a infância, pois minha mãe temia o temperamento artístico exacerbado de minha irmã. Não obstante, creio que elas se amavam...



Primeiro amor (de Alma Welt)
318

Amores como sonhos se desfazem
Tênues como teias entre as ramas
Se deixamos de urdir as nossas tramas
Enquanto as ilusões se liquefazem.

Mas resta o amor que ainda esperas,
Somente aquele um, da nossa infância,
O beijo virginal de uma criança
Que reconhecemos de outras eras.

Os olhos de uma corça em seu candor
E o cheiro, ah! o perfume de uma boca
De pequenos lábios como flor

De que perseguiremos o respiro
(conquanto uma só vida seja pouca),
De cujo alento é feito o último suspiro.


(sem data)


Nota
Deslumbrada encontrei este soneto, sem data, na arca da Alma, e que fui logo conferir, o que é possivel graças ao instrumento de pesquisa dos blogs, e confirmei ser inédito. Alma, nele se refere ao primeiro amor,definitivo, que para alguns acontece ainda na infância, como foi o caso dela, nós sabemos por quem... (Lucia Welt)



Adeus Pampa (de Alma Welt)
338

Pampa amado de minha juventude,
Da guria que fui e ainda sou!
Dói-me demais saber que não mais pude
Prorrogar os prazos que me dou.

Devo partir, eu sei, chegou o fim,
O Grande Gáltcho recusou a apelação,
A última que fiz, não só por mim
Mas por meu amor e meu irmão.

Por Lucia, Matilde e o bom Galdério,
Pelos guris no jardim do casarão,
E o bosque que me foi um refrigério.

Ah! A biblioteca imensa e amada
Também sala do "piano do patrão",
E, ai! Rodo, nossa alcova na mansarda...

18/01/2007



Onde vivem os deuses (de Alma Welt)
344

E eu cantaria o amor que me coubera
Ao nascer de novo nestes pagos
Isolados do mundo, noutra era,
Onde vivem os deuses e os magos.

Aqui me apaixonei por meu irmão,
Que como Eros piá vivia alado,
Sem dar-nos conta da cruel proibição,
Pois somente guiados pelo Fado.

Eis que num certo dia, aziago,
Fomos flagrados ao pé da minha Ara
Num lance que faria grande estrago

Não fora em nós a reverência e a fé
Nos nossos velhos deuses, coisa rara,
Que nos salvou o amor e... a alma até.

(sem data)


Nota
Acabo de encontrar na arca este soneto de tema recorrente, onde Alma atribui à sua fé nos deuses a preservação da pureza de seu amor proibido, legitimado por ela em termos poéticos e estéticos, senão históricos e sociais, durante toda a sua vida. (Lucia Welt)



A Árvore dos Sonhos (de Alma Welt)
346

As coisas que amamos nos dão paz
E levam-nos de volta às raízes
Do ser, ou dos seres tão felizes
Que fomos quando éramos piás.

Ali, ante a árvore dos sonhos
Antes do escândalo e do susto
Quando vida e mundo eram risonhos
E ainda não sabíamos o custo,

Prosternei-me um dia sem rancor
E sem mais a memória de horror
De quando tive a inocência violada

Debaixo dessa velha macieira
Que permanece pura e intocada
E a me ensinar a ser dessa maneira.

08/12/2006


Amores meus! (de Alma Welt)
362

Amores meus, mitos sagrados,
Ícones de minh’alma agradecida,
Quão grata sou aos meus amados
Por se deixarem ser em minha vida!

Aquele inaugurou meu próprio ser
Debaixo da Árvore da Inocência
A que escolhi na aurora pertencer,
Malgrado dúbio fruto e consciência;

Outro, tão ardente e de meu sexo,
Que colada a mim me duplicava,
Pois que ainda sinto o seu amplexo...

E outro e mais outro, como açoites,
Rubras flechas tiradas de uma aljava
E lançadas de mim nas minhas noites...

16/01/2007


O ninho da Salamandra (de Alma Welt)
370

Iremos lá, àquele Cerro, meu irmão,
Como fomos juntos às Missões,
Sete Povos, lembra? num verão,
Quando a lenda nos tocou os corações.

Mas ao Jarau iremos delirantes
E assim encontraremos o caminho
E chegaremos à sala dos diamantes
Onde a Salamandra fez seu ninho.

E seguiremos, eu sei, e não malditos
Pois não somos movidos por ganância,
Mas pela graça de nossa leda infância.

Quanto ao ouro e o poder, estes gigantes
Não nos poderão deixar aflitos,
Que o tesouro vive em nós e vem de antes.


14/10/2006
Missões- Alma se refere aos Sete Povos das Missões, conjunto de ruinas grandiosas das "reduções" jesuítas no Pampa riograndense, que Alma e Rodo visitaram algumas vezes, à primeira vez ainda guris, com o nosso Vati.

* (Cerro do) Jarau- Alma se refere à lenda gaúcha da Salamanca do Jarau, de origem popular anônima pampiana, mas consagrada na versão do escritor gaúcho Simões Lopez Netto em 1913. Note-se que há versões em que a palavra Salamanca (da princesa moura que vem dessa terra de Espanha) se torna Salamandra, o elemental do fogo, que na lenda é chamada de Teiniaguá. (Lucia Welt)


Sonho e projeção (de Alma Welt)
382

Nas noites da estância há muito brilho,
Quero dizer, outro brilho que não meu,
Como o comboio da lua no seu trilho,
A viagem que meu pai me prometeu.

Sim, quando guria no seu colo,
Ele me apontando a Branca Via,
Turnê brilhante de uma carreira solo,
Que assim no seu sonho ele me via...

Mas de cabelos soltos, muito branca,
Ladeada por ele e pelo irmão
Eu sonhava que ali cavalgaria.

E era essa a imagem pura e franca
Que eu fazia dele mesmo em projeção
Pois meu mundo era pleno, e eu sabia...

(sem data)

Fênix (de Alma Welt)
384

Toda a experiência acumulada
Foi vã diante da força do momento
De emoção pungente e desatada
Produzida por antigo sentimento

Que voltou a mim como um pampeiro
Quando confrontei meu próprio amor
Ao vê-lo adentrar o meu terreiro
Vindo em minha direção... o predador!

E então, ó santa ingenuidade!
Um rubor me sobe, ó inocência!
E o tremor substitui toda a saudade.

E como uma donzela de outra era
Voltei a sonhar a tal quimera
Do primeiro amor em sua demência...

(sem data)



Notícias do Front (de Alma Welt)
988

As notícias do front carteado
Chegam por Matilde até mim
Quando estou vagando pelo prado
Ou devaneando no jardim.

Rodo ganhou! Está a caminho!
Vem vindo no seu bólido vermelho,
E eu, entre a vergonha e o carinho
Preciso correr até o espelho.

E me vejo perdida em outra vida,
Alienada, meus sonhos pelo chão,
A esperar que uma cartada me decida...

O que quero? Que tenho eu com a sorte
Nas cartas vitoriosas de um irmão,
Se a minha é sempre a tal, da Morte?

06/01/2007